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Crônicas do Mente Madura - O tamanho da dor.

    Clara percebeu que alguma coisa havia mudado nela quando começou a evitar o espelho. Não porque estivesse insatisfeita com a aparência. Era outra coisa. Ela simplesmente não queria encontrar o próprio olhar. Havia meses que sua vida parecia pesada demais. O trabalho estava difícil. O dinheiro, apertado. As responsabilidades, cada vez maiores. O marido chegava em casa cansado. Ela também. As conversas tinham diminuído. As pequenas irritações tinham aumentado. E aquilo que antes era resolvido com uma conversa agora terminava em silêncio. Clara começou a pensar que o casamento estava acabando. Não houve uma grande traição. Não houve uma descoberta. Não houve uma cena definitiva. Havia apenas um acúmulo. Pequenas frustrações. Pequenos ressentimentos. Pequenas decepções. Até que um dia ela pensou: “Eu não consigo mais.” E essa frase começou a aparecer em todos os lugares. Não consigo mais trabalhar assim. Não consigo mais cu...

Crônicas do Mente Madura - O que você nunca me contou.

 




Às seis e vinte da manhã, Eduardo já estava na varanda.

Tinha colocado duas xícaras sobre a mesa e observava o movimento lento das nuvens sobre as montanhas.

Moravam em Santa Catarina havia muitos anos. A casa ficava numa região tranquila, cercada de verde, onde as manhãs chegavam devagar.

Patrícia apareceu alguns minutos depois.

— Você já fez café?

Eduardo sorriu.

— Fiz.

— Forte?

— Como você gosta.

Ela se sentou ao lado dele.

— Obrigada.

Ficaram alguns segundos em silêncio.

Não era um silêncio ruim.

Era o silêncio de duas pessoas que se conheciam havia muito tempo.

Eduardo sabia que Patrícia gostava do café forte.

Sabia que ela acordava devagar.

Sabia que não gostava de falar muito nos primeiros minutos da manhã.

Sabia quais músicas ela gostava.

Sabia o que ela não comia.

Sabia os horários dos médicos.

Sabia quais amigas ela encontraria naquela semana.

Sabia praticamente tudo sobre a vida dela.

Ou pelo menos era isso que imaginava.

Patrícia tomou um gole de café.

— Você está preocupado?

Eduardo olhou para ela.

— Por quê?

— Você está quieto.

Ele sorriu.

— Eu sempre fico quieto de manhã.

— Eu sei.

Ela voltou a olhar para a paisagem.

Depois de alguns segundos, perguntou:

— Você está feliz?

Eduardo demorou um pouco para responder.

— Estou.

— Só isso?

— O que você quer que eu diga?

Ela deu de ombros.

— Nada.

Mais alguns segundos de silêncio.

Eduardo olhou para ela.

— E você?

— Eu o quê?

— Está feliz?

Patrícia sorriu.

— Estou.

Ele tomou o café.

— Só isso?

Ela olhou para ele.

— O que você quer que eu diga?

Os dois riram.

E talvez aquela pequena troca tivesse passado despercebida em qualquer outro dia.

Mas não naquela manhã.

Porque Patrícia ficou pensando na pergunta.

E Eduardo também.

Depois de quase trinta anos juntos, eles ainda respondiam um ao outro com as mesmas palavras.

"Estou bem."

"Estou feliz."

"Está tudo certo."

"Depois a gente conversa."

"Não é nada."

Eles tinham construído uma vida inteira em torno de respostas suficientes.

Mas, naquela manhã, Patrícia teve uma sensação estranha.

Como se houvesse alguma coisa entre os dois que nenhum deles estava dizendo.

— Eduardo...

— Hum?

— Você acha que a gente conversa?

Ele sorriu.

— Claro que conversa.

— Não estou falando de falar.

Ele ficou quieto.

— Então do que você está falando?

Ela pensou.

— Não sei.

— Como assim?

— É justamente isso.

Eduardo pousou a xícara.

— Você está querendo dizer que a gente não conversa sobre coisas importantes?

— Não.

— Então?

— Estou tentando descobrir.

Ele olhou para ela.

— Descobrir o quê?

Patrícia respirou fundo.

— Se a gente ainda sabe um do outro.

Eduardo franziu a testa.

— Como assim?

— Eu sei que você gosta de café forte.

Ele riu.

— Ainda bem.

— Sei que você prefere ficar em casa no sábado.

— Isso é verdade.

— Sei que você odeia quando eu atraso.

— Isso também é verdade.

Ela sorriu.

— Sei que você não gosta de falar quando está irritado.

Eduardo ficou sério.

— E você sabe por quê?

Ela pensou.

— Porque você é assim.

— Exatamente.

— Mas isso não responde.

— Responde o quê?

— O que acontece dentro de você quando você fica irritado.

Eduardo ficou olhando para ela.

Dessa vez, não encontrou uma resposta rápida.

Patrícia continuou:

— Eu sei como você se comporta.

— E você acha que isso é diferente de me conhecer?

— Acho.

Ele respirou lentamente.

— Então me explica.

Ela olhou para a paisagem.

— Eu não sei se você tem medo de alguma coisa.

Eduardo permaneceu em silêncio.

— Não sei qual foi a última coisa que fez você se sentir realmente inseguro.

Ele mexeu os dedos sobre a mesa.

— Não sei se você se sente velho.

Eduardo levantou os olhos.

— Por que você perguntaria isso?

— Porque eu sinto.

Ele não respondeu.

Patrícia continuou:

— Não sei se você tem algum sonho que nunca me contou.

— Tenho.

Ela olhou para ele.

— Tem?

— Tenho.

— Qual?

Eduardo sorriu.

— Você nunca perguntou.

A frase caiu entre os dois.

Não como uma acusação.

Como uma descoberta.

Patrícia baixou os olhos.

— E você nunca contou.

— É verdade.

Ficaram em silêncio.

Dessa vez, porém, o silêncio era diferente.

Havia alguma coisa começando ali.

— Sabe o que eu acho? — disse Patrícia.

— O quê?

— A gente aprendeu a viver junto.

— Sim.

— Aprendeu a dividir as contas.

— Sim.

— A cuidar dos filhos.

— Sim.

— A organizar férias.

— Sim.

— A resolver problemas.

— Bastante.

Ela sorriu.

— A gente aprendeu a funcionar.

Eduardo olhou para ela.

— E isso é ruim?

— De jeito nenhum.

Ela segurou a mão dele.

— Só que talvez a gente tenha esquecido de aprender um ao outro.

Eduardo ficou alguns segundos olhando para os dedos dela entre os seus.

— Você está dizendo que não me conhece?

— Estou dizendo que existem partes suas que eu ainda não conheço.

— E isso é culpa de quem?

Patrícia sorriu.

— Dos dois.

Ele sorriu também.

— Finalmente uma discussão em que você não colocou a culpa em mim.

Ela deu um pequeno tapa no braço dele.

— Estou falando sério.

— Eu sei.

Eduardo ficou olhando para ela.

— Quer saber uma coisa?

— Quero.

— Eu também não conheço tudo de você.

Patrícia pareceu surpresa.

— Não?

— Não.

— O quê você não conhece?

Ele pensou.

— Eu não sei o que você faria se não tivesse medo de decepcionar ninguém.

Patrícia ficou imóvel.

— Essa foi difícil.

— Eu sei.

— Como você chegou nessa pergunta?

— Porque eu vejo você dizendo sim para muita coisa que você não quer fazer.

Ela desviou o olhar.

— Talvez.

Eduardo sorriu.

— Você está fazendo isso de novo.

— O quê?

— Respondendo sem responder.

Ela riu.

— Está vendo? Você me conhece.

— Algumas coisas.

Patrícia respirou fundo.

— Então me pergunta.

Eduardo ficou sério.

— O quê?

— Qualquer coisa.

Ele pensou por alguns segundos.

— O que você gostaria de fazer que nunca fez?

Ela olhou para ele.

Dessa vez, não respondeu imediatamente.

— Eu gostaria de viajar sozinha.

Eduardo arregalou os olhos.

— Sozinha?

— Sim.

— Por quê?

— Porque eu nunca descobri quem eu sou quando ninguém está esperando nada de mim.

Eduardo permaneceu em silêncio.

— Isso te assusta? — perguntou ela.

— Um pouco.

— Por quê?

— Porque eu sempre achei que nós fizéssemos tudo juntos.

Ela sorriu.

— Nós fazemos.

— Então por que você quer fazer isso sozinha?

Patrícia apertou a mão dele.

— Porque estar comigo mesma também faz parte de estar com você.

Eduardo ficou olhando para ela.

A resposta não era a que esperava.

Mas era uma resposta que queria aprender.

— Então eu quero saber mais — disse ele.

— Mais o quê?

— Sobre você.

Ela sorriu.

— Então pergunta.

Ele pensou novamente.

— O que você nunca me contou?

Patrícia ficou em silêncio.

Olhou para as montanhas.

Depois para ele.

— Tenho medo de envelhecer.

Eduardo não se mexeu.

— E você?

— Também.

— Nunca falou.

— Você nunca perguntou.

Ela sorriu.

— Estamos começando a repetir isso.

Ele riu.

— É.

Patrícia encostou a cabeça no ombro dele.

— Eu tenho medo de acordar um dia e perceber que passei a vida inteira cuidando de todo mundo e não descobri algumas coisas sobre mim.

Eduardo passou o braço por trás dela.

— Eu tenho medo de deixar de ser interessante para você.

Ela levantou a cabeça.

— Você acha isso?

— Às vezes.

— Eduardo...

— Não precisa dizer que não.

— Eu não ia dizer isso.

Ele a olhou.

— Não?

— Eu ia dizer que você precisa me contar quando sentir isso.

Ele sorriu.

— Por quê?

— Porque eu não tenho como cuidar de uma coisa que você esconde de mim.

A frase ficou no ar.

E, naquele instante, os dois entenderam alguma coisa que talvez devessem ter entendido muitos anos antes.

Amor não dá ao outro o poder de adivinhar.

Amor oferece a oportunidade de conhecer.

Você pode amar alguém profundamente e ainda assim não saber como essa pessoa precisa ser amada.

Pode dormir ao lado dela durante vinte anos e não saber qual medo ela guarda.

Pode conhecer suas manias e desconhecer seus sonhos.

Pode saber exatamente como ela toma café e ignorar aquilo que tira o sono dela.

Porque intimidade não nasce apenas do tempo.

Intimidade nasce da revelação.

Da coragem de dizer:

"É isso que acontece comigo."

"É isso que eu preciso."

"É assim que eu recebo amor."

"É assim que eu me machuco."

"É disso que eu tenho medo."

E também da disposição de perguntar:

"Como eu posso chegar até você?"

"Como você gostaria de ser cuidado?"

"Como posso entender melhor o que você está sentindo?"

Não é justo exigir que o outro adivinhe aquilo que nunca foi revelado.

Assim como também não é justo usar a falta de comunicação do outro como desculpa para nunca perguntar.

Relacionamentos adultos não funcionam por adivinhação.

Funcionam por construção.

Duas pessoas se encontram.

Trazem histórias diferentes.

Medos diferentes.

Linguagens diferentes.

Necessidades diferentes.

E passam a vida aprendendo.

Porque ninguém permanece exatamente igual.

A mulher de cinquenta anos não é a mesma mulher de vinte e cinco.

O homem de cinquenta e sete não é o mesmo homem de trinta.

O que fazia sentido antes pode deixar de fazer.

O que antes não importava pode passar a importar profundamente.

O corpo muda.

Os sonhos mudam.

Os pais envelhecem.

Os filhos saem de casa.

O trabalho muda.

As prioridades mudam.

E o casal que acredita que já conhece completamente o outro corre o risco de continuar amando uma pessoa que já não existe exatamente daquela forma.

Por isso, amar durante muitos anos exige uma disposição quase paradoxal:

continuar conhecendo quem você já conhece.

Naquela manhã, Eduardo terminou o café.

Patrícia continuava encostada nele.

— Vamos fazer uma coisa? — ele perguntou.

— O quê?

— Uma pergunta por dia.

Ela sorriu.

— Uma pergunta?

— Uma pergunta que a gente nunca fez.

— Durante quanto tempo?

— Até a gente cansar.

Ela riu.

— Então vai demorar.

— Ainda bem.

Patrícia olhou para ele.

— Posso começar?

— Pode.

Ela pensou.

Depois perguntou:

— O que você ainda gostaria de viver comigo?

Eduardo olhou para o horizonte.

Dessa vez, demorou bastante para responder.

E Patrícia não o apressou.

Porque talvez essa seja também uma forma de amar:

dar ao outro tempo suficiente para encontrar dentro de si uma resposta que nunca tinha conseguido dizer.

Quando ele finalmente respondeu, ela apertou sua mão.

Não porque a resposta fosse perfeita.

Mas porque ele havia escolhido revelá-la.

E ela havia escolhido escutá-la.

Talvez seja isso que tantos relacionamentos esquecem.

Não basta permanecer.

É preciso continuar se encontrando.

Não basta morar na mesma casa.

É preciso abrir espaço para que o outro continue existindo dentro dela.

Não basta dizer "eu te amo".

É preciso aprender como esse amor chega ao outro.

E ensinar como ele chega até você.

Porque ninguém nasceu sabendo amar exatamente a pessoa que encontrou.

Amor também se aprende.

E talvez a maior maturidade dentro de uma relação seja abandonar a expectativa infantil de que o outro deveria saber.

Ele não deveria saber.

Você pode ensinar.

Ela não deveria adivinhar.

Você pode revelar.

E, depois de revelar, você também precisa aprender.

Aprender o outro.

De novo.

E de novo.

E de novo.

Porque duas pessoas podem passar a vida inteira juntas e ainda terem muito o que descobrir.

Naquela manhã, Eduardo olhou para Patrícia e disse:

— Posso fazer a próxima pergunta amanhã?

Ela sorriu.

— Pode.

— E você responde?

— Se você perguntar de verdade.

Ele riu.

— Como assim?

Ela encostou novamente a cabeça no ombro dele.

— Pergunta de verdade é aquela que você está disposto a ouvir a resposta.

Eduardo ficou em silêncio.

Depois sorriu.

E os dois permaneceram ali, diante daquela manhã clara de Santa Catarina.

Não tinham resolvido nenhum problema.

Não haviam descoberto todos os segredos um do outro.

Não haviam encontrado uma fórmula para o amor.

Tinham encontrado algo melhor.

Tinham decidido continuar aprendendo.

E talvez seja isso que mantém duas pessoas juntas quando os anos passam.

Não a certeza de que já se conhecem.

Mas a disposição de continuar dizendo:

"Me conta."

"Eu quero entender."

"Me ensina."

Porque você pode estar acompanhado e ainda assim se sentir sozinho.

Mas uma relação madura não espera que o outro adivinhe o caminho até você.

Conheça-se.

Revele-se.

Aprenda o outro.

 

Ronaldo Arouca
Mente Madura

Regência Augusta ES 13 de Agosto de 2026.

 


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