Crônicas do Mente Madura - O tamanho da dor.
Clara percebeu que alguma coisa havia mudado nela
quando começou a evitar o espelho.
Não porque estivesse insatisfeita com a aparência.
Era outra coisa.
Ela simplesmente não queria encontrar o próprio
olhar.
Havia meses que sua vida parecia pesada demais.
O trabalho estava difícil.
O dinheiro, apertado.
As responsabilidades, cada vez maiores.
O marido chegava em casa cansado.
Ela também.
As conversas tinham diminuído.
As pequenas irritações tinham aumentado.
E aquilo que antes era resolvido com uma conversa
agora terminava em silêncio.
Clara começou a pensar que o casamento estava
acabando.
Não houve uma grande traição.
Não houve uma descoberta.
Não houve uma cena definitiva.
Havia apenas um acúmulo.
Pequenas frustrações.
Pequenos ressentimentos.
Pequenas decepções.
Até que um dia ela pensou:
“Eu não consigo mais.”
E essa frase começou a aparecer em todos os lugares.
Não consigo mais trabalhar assim.
Não consigo mais cuidar de tudo.
Não consigo mais pagar essas contas.
Não consigo mais conviver com ele.
Não consigo mais continuar.
Clara percebeu uma coisa curiosa:
todas as frases começavam com as mesmas três
palavras.
Eu não consigo mais.
Mas ela nunca parou para perguntar:
“Não consigo mais o quê?”
Porque a resposta parecia óbvia.
Era o casamento.
Era o marido.
Era aquela vida.
Então começou a imaginar como seria viver sozinha.
No começo, a ideia trouxe alívio.
Ninguém para cobrar.
Ninguém para perguntar.
Ninguém para esperar nada dela.
Ela poderia reorganizar a vida.
Respirar.
Começar novamente.
E quanto mais imaginava essa possibilidade, mais
convencida ficava de que aquela era a solução.
Até que, numa tarde, recebeu uma ligação da irmã.
A mãe havia passado mal.
Nada grave.
Mas a notícia assustou.
Clara largou tudo e foi para a casa da mãe.
Quando chegou, encontrou o marido sentado na sala.
Ele havia ido antes dela.
Tinha levado a mãe ao médico.
Comprado os remédios.
Conversado com o médico.
Organizado tudo.
Clara ficou parada na porta.
Não disse nada.
A mãe olhou para ela e sorriu.
— Seu marido chegou antes de você.
Clara sorriu também.
Sentou-se.
Naquele momento, não sentiu uma grande revelação.
Não pensou:
“Meu Deus, eu estava errada.”
Foi mais sutil.
Ela apenas percebeu que havia esquecido algumas
coisas.
O homem que estava sentado naquela sala era o mesmo
homem com quem havia dividido tantos anos.
O mesmo que tinha estado presente quando o pai dela
morreu.
O mesmo que a acompanhou quando perdeu o emprego.
O mesmo que acordava de madrugada quando um dos
filhos ficava doente.
O mesmo que, muitas vezes, deixava de comprar alguma
coisa para si porque sabia que ela precisava de outra.
E também era o homem com quem ela vinha brigando.
O homem que a irritava.
O homem que tinha defeitos.
O homem que também havia errado.
As duas coisas eram verdadeiras.
E foi justamente isso que a confundiu.
Durante meses, Clara havia permitido que uma verdade
ocupasse o espaço de todas as outras.
Ela estava sofrendo.
Isso era verdade.
Mas, sem perceber, transformara essa verdade em
outra:
“Meu casamento é a causa de todo o meu
sofrimento.”
E talvez não fosse.
Talvez o casamento estivesse sofrendo junto com ela.
Talvez o marido também estivesse perdido.
Talvez os dois estivessem tentando sobreviver à
mesma tempestade, cada um dentro da própria dificuldade.
Naquela noite, Clara voltou para casa diferente.
Não feliz.
Não resolvida.
Mas curiosa.
Em vez de procurar mentalmente tudo aquilo que havia
de errado no marido, começou a perguntar:
“O que está acontecendo comigo?”
A pergunta parecia pequena.
Mas abriu um espaço enorme.
Ela percebeu que estava exausta havia muito tempo.
Que carregava medos antigos.
Que a dificuldade financeira despertava nela uma
sensação de fracasso que vinha de muito antes daquele casamento.
Que qualquer dificuldade parecia confirmar uma
antiga crença de que ela precisava dar conta de tudo sozinha.
E que, quando não conseguia, sentia vergonha.
Então atacava.
Ou se afastava.
Ou queria fugir.
O casamento não tinha criado tudo aquilo.
Mas havia se tornado o lugar onde tudo aquilo
aparecia.
Essa descoberta não resolveu a vida de Clara.
Mas devolveu uma coisa que ela havia perdido:
a possibilidade de escolher com mais
clareza.
Ela continuou tendo problemas.
Continuou discordando do marido.
Continuou precisando organizar as finanças.
Continuou cansada.
Mas agora conseguia distinguir algumas coisas.
Uma conta atrasada era uma conta atrasada.
Uma dificuldade profissional era uma dificuldade
profissional.
Uma ferida antiga era uma ferida antiga.
E um problema no casamento era um problema no
casamento.
Não precisava transformar tudo em uma única coisa.
Talvez essa seja uma das maiores dificuldades quando
estamos sofrendo:
a dor gosta de juntar tudo.
Ela pega o que aconteceu hoje, mistura com o que
aconteceu há dez anos, acrescenta aquilo que tememos que aconteça amanhã e
entrega tudo de uma vez.
E então parece impossível continuar.
Clara descobriu que precisava separar as coisas.
Não para negar a dor.
Mas para enxergá-la no tamanho certo.
Porque quando estamos dentro dela, qualquer problema
pode parecer o problema.
Qualquer silêncio pode parecer abandono.
Qualquer discussão pode parecer o fim.
Qualquer dúvida pode parecer certeza.
E é justamente aí que precisamos de maturidade.
Não para dizer:
“Eu não deveria estar sentindo isso.”
Mas para conseguir dizer:
“Eu estou sentindo isso. Agora preciso
entender o que esse sentimento está tentando me mostrar.”
Sentimentos são importantes.
Eles carregam informações.
Apontam necessidades.
Revelam feridas.
Mostram limites.
Mas não foram feitos para governar sozinhos.
A dor pode pedir mudança.
Mas também pode pedir descanso.
Pode pedir distância.
Mas também pode pedir conversa.
Pode pedir um fim.
Mas, às vezes, pode estar pedindo apenas que alguma
coisa dentro de nós seja finalmente cuidada.
Por isso, antes de transformar uma dor em uma
decisão definitiva, vale fazer uma pergunta simples:
“O que, exatamente, está doendo?”
Talvez a resposta surpreenda.
Talvez não seja o casamento.
Talvez não seja aquela pessoa.
Talvez não seja sequer a situação que parece mais
evidente.
Talvez exista uma história muito maior por trás
daquele sentimento.
E quando conseguimos enxergar essa história inteira,
alguma coisa muda.
A dor continua sendo real.
Mas deixa de ser a única realidade.
E quando a dor deixa de ocupar todo o campo de
visão, a vida volta a ter espaço para aparecer.
Às vezes, é nesse espaço que encontramos uma saída.
Às vezes, encontramos uma conversa que precisava
acontecer.
Às vezes, encontramos uma mudança que realmente
precisa ser feita.
E às vezes descobrimos que aquilo que queríamos
abandonar não era a nossa vida.
Era apenas a maneira dolorosa como estávamos
vivendo uma parte dela.
Ronaldo
Arouca
Mente Madura
Regência Augusta ES
27 de Agosto de 2026.

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