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Crônicas do Mente Madura - O tamanho da dor.

    Clara percebeu que alguma coisa havia mudado nela quando começou a evitar o espelho. Não porque estivesse insatisfeita com a aparência. Era outra coisa. Ela simplesmente não queria encontrar o próprio olhar. Havia meses que sua vida parecia pesada demais. O trabalho estava difícil. O dinheiro, apertado. As responsabilidades, cada vez maiores. O marido chegava em casa cansado. Ela também. As conversas tinham diminuído. As pequenas irritações tinham aumentado. E aquilo que antes era resolvido com uma conversa agora terminava em silêncio. Clara começou a pensar que o casamento estava acabando. Não houve uma grande traição. Não houve uma descoberta. Não houve uma cena definitiva. Havia apenas um acúmulo. Pequenas frustrações. Pequenos ressentimentos. Pequenas decepções. Até que um dia ela pensou: “Eu não consigo mais.” E essa frase começou a aparecer em todos os lugares. Não consigo mais trabalhar assim. Não consigo mais cu...

Crônicas do Mente Madura - O que acontece quando a pessoa que sempre foi o porto seguro de todos finalmente precisa de um porto?

 


O almoço havia terminado fazia quase uma hora.

Ainda havia dois pratos sobre a mesa, uma panela no fogão e algumas migalhas espalhadas perto da tábua de cortar pão.

Helena estava na cozinha, de costas para os outros dois, organizando coisas que poderiam perfeitamente esperar até o dia seguinte.

— Deixa isso aí, mãe — disse Daniel.

Ela continuou recolhendo os pratos.

— Já estou terminando.

— A senhora acabou de almoçar.

— Eu sei.

— Então senta um pouco.

Helena olhou para o filho por cima do ombro.

— Estou bem.

Foi quando Marta, sentada à mesa com uma xícara de café entre as mãos, soltou uma pequena risada.

Helena se virou.

— O que foi?

— Nada.

— Você riu.

— É que você sempre está bem.

Helena franziu a testa.

— E isso é ruim?

Marta olhou para ela durante alguns segundos.

— Às vezes.

Daniel ficou em silêncio.

Helena colocou o prato que segurava sobre a pia.

— Não estou entendendo.

Marta apoiou os dois braços sobre a mesa.

— Há quarenta anos eu escuto você dizer que está bem.

— Porque eu estou.

— Você estava bem quando seu marido foi embora?

Helena não respondeu.

— Estava bem quando sua mãe ficou doente?

Silêncio.

— Estava bem quando você perdeu seu emprego?

Helena respirou fundo.

— Marta...

— Estou perguntando.

Daniel olhou para a amiga da mãe.

— Acho que ela não quer falar disso.

Marta virou-se para ele.

— Talvez seja exatamente por isso que precisamos falar.

Helena puxou uma cadeira e finalmente se sentou.

— Vocês resolveram fazer uma reunião sobre mim?

Daniel sorriu.

— Não.

Marta também sorriu.

— Só estamos tentando descobrir uma coisa.

— O quê?

— Quem cuida de quem sempre cuidou?

Helena abaixou os olhos.

Por alguns segundos, ninguém falou.

Do lado de fora, uma motocicleta passou pela rua e desapareceu rapidamente.

Ela mexeu na alça da xícara.

— Eu não preciso que cuidem de mim.

Marta respondeu sem elevar a voz:

— Talvez esse seja justamente o problema.

Helena levantou os olhos.

— Que problema?

— Você não sabe mais receber.

A frase pareceu incomodá-la.

— Isso é bobagem.

— É?

— É.

Daniel observava as duas.

— Mãe, a senhora sabe que pode pedir qualquer coisa para mim.

Helena olhou para o filho.

— Eu sei.

— Então por que nunca pede?

Ela abriu a boca para responder.

Fechou.

Depois olhou novamente para a mesa.

— Porque vocês têm suas vidas.

Daniel sorriu.

— E a senhora não tem?

— Tenho.

— Então?

Helena deu de ombros.

— Eu sempre dei conta.

Marta respirou fundo.

— Esse é o ponto.

Helena ficou quieta.

— Você sempre deu conta — continuou Marta. — E todo mundo se acostumou.

Daniel abaixou a cabeça.

A frase também tinha encontrado nele algum lugar.

Marta prosseguiu:

— Quando alguém sempre resolve tudo, as pessoas começam a esquecer que aquela pessoa também cansa.

Helena tentou brincar.

— Está querendo dizer que eu deveria fazer drama?

— Estou dizendo que talvez você tenha confundido força com obrigação.

A cozinha ficou silenciosa.

Helena levantou-se novamente.

— Vou fazer um café.

Daniel segurou delicadamente o braço da mãe.

— Eu faço.

— Você nem sabe onde está o café.

— Sei, sim.

— Não sabe.

— Sei.

Marta sorriu.

— Está na segunda porta do armário.

Daniel levantou-se.

— Está vendo? Eu sabia.

Helena riu.

Foi uma risada pequena.

Mas foi a primeira vez naquele almoço que pareceu realmente descansar.

Ela voltou a se sentar.

Daniel começou a preparar o café.

Marta ficou olhando para a amiga.

— Você sabe qual é a coisa mais estranha sobre ser forte por muito tempo?

Helena esperou.

— As pessoas começam a acreditar que você não precisa de ninguém.

— Talvez porque eu realmente não precise.

Marta inclinou a cabeça.

— Todo mundo precisa.

Helena ficou olhando para a mesa.

— Eu não gosto de depender.

— Depender é uma coisa. Receber é outra.

Helena não respondeu.

Marta continuou:

— Você cuidou da sua mãe.

Cuidou do seu marido.

Cuidou dos seus filhos.

Cuidou dos seus irmãos.

Cuidou dos amigos.

Cuidou de todo mundo.

Mas quando alguém tenta cuidar de você, você imediatamente pergunta se a pessoa precisa de alguma coisa.

Helena sorriu.

— É meu jeito.

— Eu sei.

— Então?

— Talvez esteja na hora de aprender outro.

Daniel voltou com três xícaras.

Colocou uma diante da mãe.

— Sem açúcar.

Helena olhou para ele.

— Como você sabe?

— Porque sou seu filho.

Ela sorriu.

— Você nunca lembra de nada.

— Algumas coisas eu lembro.

Marta pegou sua xícara.

— Está vendo?

Helena olhou para o café.

— Vendo o quê?

— Você acabou de receber uma xícara de café e não perguntou o que poderia fazer em troca.

Helena riu.

— Vocês estão impossíveis hoje.

Daniel puxou a cadeira.

— Mãe...

— O quê?

Ele demorou alguns segundos antes de falar.

— Eu acho que nunca perguntei direito se a senhora estava cansada.

Helena ficou imóvel.

— Você sempre me ligava quando precisava de alguma coisa — continuou ele. — Quando eu tinha problema no trabalho. Quando meu casamento estava ruim. Quando precisava de dinheiro. Quando meus filhos estavam doentes.

Ele respirou.

— E a senhora sempre resolvia.

Helena olhou para o filho.

— Era o que eu podia fazer.

— Eu sei.

Ele baixou os olhos.

— Só que eu nunca parei para perguntar se a senhora também precisava de alguém.

Helena desviou o olhar.

Marta ficou em silêncio.

Daniel continuou:

— Talvez eu tenha confundido sua força com ausência de necessidade.

Helena passou a mão pelo rosto.

— Não fala assim.

— Por quê?

— Porque eu vou chorar.

Daniel sorriu.

— Pode chorar.

Ela balançou a cabeça.

— Eu não gosto.

Marta entrou na conversa:

— Talvez você não goste porque passou muito tempo acreditando que precisava estar inteira para todo mundo.

Helena ficou olhando para os dois.

Então disse:

— Eu tenho medo.

Daniel franziu a testa.

— Medo de quê?

Ela demorou.

— De deixar de ser necessária.

A frase mudou o ambiente.

Não havia mais brincadeira.

Não havia mais defesa.

Apenas verdade.

— Se eu parar de resolver as coisas... — ela continuou — quem vai precisar de mim?

Daniel respondeu imediatamente:

— Eu.

Ela sorriu.

— Você já é adulto.

— E daí?

— Você não precisa mais de mim como antes.

— Talvez não do mesmo jeito.

Ele segurou a mão dela sobre a mesa.

— Mas eu ainda preciso da minha mãe.

Helena apertou os dedos dele.

Marta observava em silêncio.

Depois perguntou:

— Helena, você sabe qual é a diferença entre ser necessária e ser amada?

Ela não respondeu.

— Quando alguém precisa de você, existe uma função.

Quando alguém ama você, existe presença.

Você não precisa resolver nada.

Não precisa salvar ninguém.

Não precisa ser forte.

A pessoa quer você ali.

Do jeito que você estiver.

Helena respirou profundamente.

— É difícil.

— Eu sei.

— Eu não sei fazer isso.

Marta sorriu.

— Então começa pequeno.

— Como?

— Quando alguém perguntar como você está, não responda automaticamente "estou bem".

Helena riu.

— E respondo o quê?

— A verdade.

Ela pensou.

— E se eu não estiver bem?

— Diga.

— E se eu estiver cansada?

— Diga.

— E se eu precisar de ajuda?

— Peça.

Helena olhou para a amiga.

— Parece simples.

— Não é.

Daniel completou:

— Mas a senhora pode começar comigo.

Ela olhou para ele.

— Como?

— Quando estiver cansada, me liga.

— Para quê?

— Para nada.

Helena sorriu.

— Como assim, para nada?

— Só para conversar.

Ela ficou alguns segundos olhando para o filho.

— Eu não sei conversar sem resolver alguma coisa.

— Então a gente aprende.

Aquela frase ficou entre os três.

Aprender.

Talvez fosse isso.

Não aprender a ser forte.

Ela já sabia.

Aprender a não precisar ser forte o tempo inteiro.

O café esfriava nas xícaras.

A louça continuava na pia.

Nenhum dos três se levantou para guardá-la.

Pela primeira vez naquela tarde, ninguém parecia com pressa de voltar a cumprir alguma função.

Helena encostou-se na cadeira.

— Posso falar uma coisa?

— Claro — respondeu Daniel.

— Eu estou cansada.

Ninguém respondeu imediatamente.

Não porque não soubessem o que dizer.

Mas porque aquela frase merecia espaço.

Marta estendeu a mão sobre a mesa.

Helena olhou para ela.

Depois colocou sua mão sobre a mão da amiga.

Daniel colocou a dele por cima.

Três mãos.

Nenhuma delas resolvia nada.

Nenhuma consertava o passado.

Nenhuma prometia que dali em diante a vida seria fácil.

Mas, naquele instante, Helena não precisava de solução.

Precisava apenas descobrir que ainda podia descansar.

Há pessoas que passam tantos anos oferecendo abrigo que esquecem que também podem entrar em casa quando chove.

Há pessoas que se acostumaram tanto a sustentar os outros que já não sabem como dizer:

"Hoje eu preciso que você fique comigo."

E talvez uma das formas mais profundas de maturidade seja justamente essa.

Perceber que ser forte não significa suportar tudo.

Que independência não significa isolamento.

Que cuidar dos outros não exige abandonar a si mesmo.

E que receber também é uma forma de amor.

Talvez você tenha passado anos sendo a pessoa para quem todos ligam.

A pessoa que resolve.

A pessoa que aconselha.

A pessoa que aguenta.

A pessoa que aparece.

Talvez todos ao seu redor tenham aprendido a confiar tanto na sua força que esqueceram de perguntar se você está cansado.

Mas existe uma pergunta que talvez você precise fazer a si mesmo:

Quem cuida de você quando você para de cuidar de todo mundo?

Talvez a resposta não esteja em encontrar alguém que assuma a sua vida.

Talvez esteja em permitir que alguém, por alguns minutos, simplesmente fique ao seu lado.

Sem pedir nada.

Sem esperar nada.

Sem precisar que você seja forte.

Porque até quem sustenta muita gente precisa, às vezes, encostar o peso em algum lugar.

E isso não diminui ninguém.

Talvez seja justamente o contrário.

Talvez exista uma coragem muito maior em dizer:

"Hoje eu preciso de você."

Do que em repetir, mais uma vez:

"Eu estou bem."

Ronaldo Arouca
Mente Madura

Regência Augusta ES 12 de Agosto de 2026.

 




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