Pular para o conteúdo principal

Destaques

Crônicas do Mente Madura - O tamanho da dor.

    Clara percebeu que alguma coisa havia mudado nela quando começou a evitar o espelho. Não porque estivesse insatisfeita com a aparência. Era outra coisa. Ela simplesmente não queria encontrar o próprio olhar. Havia meses que sua vida parecia pesada demais. O trabalho estava difícil. O dinheiro, apertado. As responsabilidades, cada vez maiores. O marido chegava em casa cansado. Ela também. As conversas tinham diminuído. As pequenas irritações tinham aumentado. E aquilo que antes era resolvido com uma conversa agora terminava em silêncio. Clara começou a pensar que o casamento estava acabando. Não houve uma grande traição. Não houve uma descoberta. Não houve uma cena definitiva. Havia apenas um acúmulo. Pequenas frustrações. Pequenos ressentimentos. Pequenas decepções. Até que um dia ela pensou: “Eu não consigo mais.” E essa frase começou a aparecer em todos os lugares. Não consigo mais trabalhar assim. Não consigo mais cu...

Crônicas do Mente Madura - Quando o nome muda, a dor também muda.

 



Você já reparou como algumas pessoas conseguem falar do que sentem com uma naturalidade que chega a causar inveja?

Elas dizem:

— Estou triste.

Ou:

— Estou com medo.

Ou ainda:

— Acho que isso me machucou.

E seguem a conversa.

Parece simples. Mas não é.

Para muita gente, essas palavras nunca fizeram parte do vocabulário.

Durante anos aprenderam outras.

"Seja forte."

"Engole o choro."

"Isso passa."

"Você está exagerando."

Sem perceber, foram trocando o nome das emoções por instruções de sobrevivência.

É curioso como isso acontece.

Ninguém acorda um dia e decide perder o contato com o que sente.

Acontece devagar.

Uma decepção aqui.

Um silêncio acolá.

Uma infância em que ninguém perguntava o que havia dentro do peito, apenas se a tarefa estava feita, se a nota era boa, se o comportamento era adequado.

E assim crescemos.

Aprendemos a responder o que esperam ouvir.

Mas deixamos de responder a pergunta mais importante.

"O que está acontecendo dentro de mim?"

Outro dia encontrei um senhor sentado sozinho em uma praça.

Não o conhecia.

Enquanto esperava alguém, ele observava as pessoas passarem.

Depois de alguns minutos comentou, quase como quem fala consigo mesmo:

— Engraçado... eu passei a vida inteira dizendo que era estressado.

Ficamos em silêncio.

Então ele continuou.

— Acho que eu nunca fui estressado. Eu só vivi preocupado durante muitos anos.

Aquilo ficou ecoando em mim.

Veja como uma única palavra muda tudo.

"Estressado" parece um defeito de personalidade.

"Preocupado" revela uma experiência humana.

Uma palavra acusa.

A outra acolhe.

Talvez seja por isso que dar nome ao que sentimos seja tão importante.

Porque um nome pode nos aprisionar.

Mas também pode nos libertar.

Pense em quantas vezes você já disse que estava apenas cansado.

Talvez estivesse.

Mas talvez aquele cansaço fosse tristeza.

Ou medo.

Ou solidão.

Há pessoas que chamam de irritação aquilo que nasceu da frustração.

Chamam de ansiedade o que, na verdade, é insegurança.

Chamam de frieza o que começou como uma enorme necessidade de proteção.

Os nomes vão mudando.

E, quando mudam, passamos a tratar a emoção errada.

É como tomar um remédio para dor de cabeça quando o problema está no estômago.

O desconforto continua porque nunca encontramos sua verdadeira origem.

Existe uma delicadeza nisso tudo que poucas pessoas percebem.

Dar nome ao que sentimos não elimina imediatamente o sofrimento.

Nenhuma palavra possui esse poder.

Mas existe algo que ela faz.

Ela ilumina.

É difícil caminhar em um quarto completamente escuro.

Não porque o caminho não exista.

Mas porque não conseguimos enxergá-lo.

Quando acendemos uma pequena luz, os móveis continuam no mesmo lugar.

As paredes continuam iguais.

Nada foi transformado.

Mesmo assim, tudo muda.

Agora sabemos onde colocar os pés.

As emoções também são assim.

Enquanto permanecem sem nome, parecem ocupar a casa inteira.

Quando finalmente conseguimos reconhecê-las, descobrimos que elas têm tamanho, forma, história.

Deixam de ser monstros invisíveis.

Voltam a ser apenas parte da nossa experiência humana.

Talvez seja por isso que algumas conversas transformem tanto a nossa vida.

Não porque a outra pessoa tenha respostas extraordinárias.

Mas porque, às vezes, ela nos oferece uma palavra que nunca conseguimos encontrar sozinhos.

De repente percebemos:

"Então era isso..."

E essa pequena frase costuma carregar um enorme alívio.

Não porque o problema terminou.

Mas porque o mistério começou a acabar.

Existe uma paz discreta em compreender aquilo que antes apenas nos confundia.

Talvez amadurecer tenha menos relação com controlar as emoções do que aprendemos a acreditar.

Talvez amadurecer seja desenvolver um vocabulário mais honesto para aquilo que acontece dentro de nós.

Trocar acusações por compreensão.

Trocar rótulos por presença.

Trocar vergonha por curiosidade.

Porque ninguém consegue cuidar daquilo que nunca reconheceu.

E ninguém reconhece aquilo que nunca aprendeu a nomear.

Talvez hoje você não precise resolver tudo.

Talvez baste fazer uma única pergunta, com calma e sem julgamento:

O que, exatamente, eu estou sentindo?

Às vezes, essa pergunta vale mais do que muitas respostas.

Porque, quando uma emoção deixa de ser um mistério, ela já começa a perder o poder de conduzir nossa vida em silêncio.

E talvez seja exatamente por isso que as palavras, quando usadas com carinho, também saibam abraçar.

 

Ronaldo Arouca
Mente Madura

Linhares ES 31 de Julho de 2026.

 


Comentários

Postagens mais visitadas