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Destaques

Crônicas do Mente Madura - O tamanho da dor.

    Clara percebeu que alguma coisa havia mudado nela quando começou a evitar o espelho. Não porque estivesse insatisfeita com a aparência. Era outra coisa. Ela simplesmente não queria encontrar o próprio olhar. Havia meses que sua vida parecia pesada demais. O trabalho estava difícil. O dinheiro, apertado. As responsabilidades, cada vez maiores. O marido chegava em casa cansado. Ela também. As conversas tinham diminuído. As pequenas irritações tinham aumentado. E aquilo que antes era resolvido com uma conversa agora terminava em silêncio. Clara começou a pensar que o casamento estava acabando. Não houve uma grande traição. Não houve uma descoberta. Não houve uma cena definitiva. Havia apenas um acúmulo. Pequenas frustrações. Pequenos ressentimentos. Pequenas decepções. Até que um dia ela pensou: “Eu não consigo mais.” E essa frase começou a aparecer em todos os lugares. Não consigo mais trabalhar assim. Não consigo mais cu...

Crônicas do Mente Madura - Quando a dor troca de roupa.

 



Na esquina daquela rua havia uma pequena alfaiataria. Dessas antigas, onde o dono conhecia quase todos os clientes pelo nome e ainda fazia barras de calças à mão. Na vitrine, um manequim vestia um paletó azul-marinho impecável. Ao lado dele, uma placa discreta dizia:

"Ajustamos para servir perfeitamente."

Sempre achei curiosa aquela frase.

Um bom alfaiate nunca muda a pessoa.

Muda apenas a roupa.

Naquela manhã, enquanto observava a vitrine, pensei que talvez a dor faça exatamente o contrário.

Ela nunca muda de verdade.

Troca apenas de roupa.

Quando somos crianças, ela costuma aparecer em forma de choro.

Depois ganha o nome de birra.

Mais tarde, chamam de rebeldia.

Na vida adulta, passa a ser estresse.

Ansiedade.

Impaciência.

Falta de tempo.

Cansaço.

Em alguns dias, recebe até elogios.

"Ele é muito dedicado."

"Ela nunca para."

"É uma pessoa forte."

Poucos percebem que, às vezes, por trás daquela dedicação existe alguém que aprendeu a fugir do silêncio.

Por trás da força existe alguém que nunca encontrou um lugar seguro para descansar.

E por trás do excesso de trabalho mora uma pergunta antiga que continua esperando resposta.

Foi então que um senhor entrou na alfaiataria carregando um casaco gasto.

O tecido estava velho.

Os cotovelos, marcados pelo tempo.

Mas ele não queria um casaco novo.

Queria apenas trocar o forro.

"Por fora ainda está bom", disse ao alfaiate.

Enquanto ele falava, imaginei quantas pessoas fazem exatamente isso consigo mesmas.

Trocam o cargo.

Trocam a cidade.

Trocam o relacionamento.

Trocam o carro.

Trocam a rotina.

Trocam até o corte de cabelo.

Na esperança de que alguma mudança do lado de fora resolva aquilo que continua intacto por dentro.

Nem sempre percebemos isso.

Porque mudanças produzem uma agradável sensação de recomeço.

Uma casa nova.

Uma agenda nova.

Um celular novo.

Tudo isso pode trazer entusiasmo.

E entusiasmo é importante.

O problema começa quando esperamos que essas novidades curem feridas que nunca foram visitadas.

É como pintar uma parede com infiltração.

Durante alguns dias, tudo parece resolvido.

Depois, a mancha volta.

Não porque a tinta fosse ruim.

Mas porque a água continuou chegando pelo mesmo lugar.

Talvez seja por isso que algumas histórias parecem se repetir.

Mudam os nomes.

Mudam os rostos.

Mudam os cenários.

Mas a sensação permanece estranhamente familiar.

A pessoa diz:

"Não sei por que sempre acontece comigo."

Talvez porque a vida não esteja repetindo o problema.

Talvez esteja repetindo o convite.

Há convites que chegam vestidos de perda.

Outros chegam na forma de decepção.

Alguns aparecem como ansiedade.

Outros como um vazio difícil de explicar.

Quase todos carregam a mesma pergunta silenciosa:

"Até quando você vai olhar apenas para a roupa?"

Há alguns meses, encontrei um ipê completamente florido.

Era inverno.

Ao redor dele, muitas árvores pareciam secas.

Quem não conhece o ipê imagina que ele floresce apesar de perder as folhas.

Mas acontece justamente o contrário.

Ele floresce porque as perdeu.

Algumas belezas só aparecem quando aquilo que escondia o essencial finalmente cai.

Talvez seja assim conosco também.

Passamos muitos anos tentando trocar as roupas da dor.

Damos nomes elegantes para ela.

Chamamos de rotina.

Chamamos de personalidade.

Chamamos de jeito de ser.

Chamamos de fase.

Enquanto isso, ela continua morando exatamente no mesmo lugar.

Não para nos castigar.

Mas para ser encontrada.

Existe uma enorme diferença entre conviver com uma dor e conversar com ela.

Conviver é carregar.

Conversar é compreender.

Quem conversa com a própria dor começa a descobrir que ela raramente é inimiga.

Na maioria das vezes, é uma mensageira insistente.

Ela bate devagar.

Depois bate mais forte.

Depois grita.

Não porque goste do sofrimento.

Mas porque desistiu de ser ignorada.

Na volta para casa, passei novamente diante da alfaiataria.

O senhor já havia ido embora.

Na vitrine, o mesmo paletó continuava perfeitamente alinhado.

Só então percebi que aquele pequeno letreiro dizia muito mais do que parecia.

"Ajustamos para servir perfeitamente."

Sorri sozinho.

Algumas roupas realmente podem ser ajustadas.

Mas algumas dores não.

Elas não pedem um novo tecido.

Nem uma nova aparência.

Pedem apenas que alguém tenha coragem de olhar para o mesmo endereço onde elas sempre estiveram.

Porque há dores que mudam de nome.

Mudam de roupa.

Mudam de cenário.

Mas nunca de endereço.

E talvez o início da maturidade não aconteça quando conseguimos escondê-las melhor.

Talvez aconteça no dia em que, finalmente, decidimos bater à porta desse endereço e dizer, sem medo:

"Agora eu estou pronto para ouvir o que você tem a me contar."

Ronaldo Arouca
Mente Madura

Linhares ES 30 de Julho de 2026

 


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