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Crônicas do Mente Madura - O tamanho da dor.

    Clara percebeu que alguma coisa havia mudado nela quando começou a evitar o espelho. Não porque estivesse insatisfeita com a aparência. Era outra coisa. Ela simplesmente não queria encontrar o próprio olhar. Havia meses que sua vida parecia pesada demais. O trabalho estava difícil. O dinheiro, apertado. As responsabilidades, cada vez maiores. O marido chegava em casa cansado. Ela também. As conversas tinham diminuído. As pequenas irritações tinham aumentado. E aquilo que antes era resolvido com uma conversa agora terminava em silêncio. Clara começou a pensar que o casamento estava acabando. Não houve uma grande traição. Não houve uma descoberta. Não houve uma cena definitiva. Havia apenas um acúmulo. Pequenas frustrações. Pequenos ressentimentos. Pequenas decepções. Até que um dia ela pensou: “Eu não consigo mais.” E essa frase começou a aparecer em todos os lugares. Não consigo mais trabalhar assim. Não consigo mais cu...

Crônicas do Mente Madura - Há razões que custam caro demais.

 



Existe uma pergunta que faço a mim mesmo de tempos em tempos.

Quanto da minha vida eu já desperdicei tentando estar certo?

Talvez você nunca tenha pensado nisso. Eu também não pensava.

A gente costuma acreditar que ter razão é uma virtude. Desde criança aprendemos a defender nossas ideias, justificar nossas escolhas, explicar nossos motivos. Quase sem perceber, passamos a viver como advogados de nós mesmos.

Sempre há um argumento a apresentar.

Uma explicação convincente.

Uma prova de que o outro foi injusto.

E, muitas vezes, estamos mesmo certos.

O curioso é que a vida parece não se impressionar muito com isso.

Ela continua perguntando outra coisa.

O que sua razão preservou?

Essa pergunta me incomoda.

Porque, olhando para trás, percebo que algumas das maiores perdas da minha vida não aconteceram por falta de argumentos. Aconteceram justamente quando eu tinha argumentos demais.

Há conversas que terminam com um vencedor.

Mas deixam dois derrotados.

Há pessoas que conseguem provar cada ponto do que dizem.

Mesmo assim, voltam para casa carregando um silêncio que argumento nenhum consegue preencher.

Com o tempo fui percebendo que os relacionamentos não adoecem apenas por causa da mentira, da traição ou da falta de amor.

Eles adoecem quando o desejo de ser compreendido deixa de ser maior do que a necessidade de convencer.

É uma mudança quase imperceptível.

Primeiro deixamos de ouvir para compreender.

Depois passamos a ouvir apenas para responder.

Até que chega um momento em que já não estamos conversando com a pessoa.

Estamos debatendo com a imagem que construímos dela.

Talvez seja por isso que tantas relações terminem antes mesmo de acabar.

As pessoas continuam presentes.

Mas já não conseguem se encontrar.

E isso não acontece apenas entre casais.

Acontece entre pais e filhos.

Entre irmãos.

Entre amigos.

Entre colegas de trabalho.

Às vezes, acontece dentro de nós.

Porque também brigamos com a pessoa que fomos, com as escolhas que fizemos e com a vida que imaginávamos ter.

Talvez amadurecer tenha menos a ver com colecionar certezas e mais com aprender a fazer perguntas.

Nem toda verdade precisa ser dita naquele momento.

Nem toda resposta precisa ser dada.

Nem toda razão merece ser defendida.

Há momentos em que preservar uma pessoa vale mais do que preservar um argumento.

Isso não significa concordar com tudo.

Nem abrir mão dos próprios valores.

Significa apenas reconhecer que existem vitórias que empobrecem a alma.

E derrotas que nos tornam profundamente humanos.

Hoje, quando sinto vontade de vencer uma conversa, procuro fazer uma pausa.

Não porque deixei de acreditar no que penso.

Mas porque aprendi que existe uma pergunta maior do que "quem está certo?".

Ela é simples.

Depois que esta conversa terminar... o que eu quero que permaneça entre nós?

Talvez essa seja uma das perguntas mais maduras que alguém possa fazer.

Porque há razões que custam caro demais.

E, quase sempre, o preço não é pago no momento em que insistimos em ter razão.

Ele aparece, silenciosamente, no vazio que fica depois.

Ronaldo Arouca
Mente Madura

Linhares ES 24 de Julho de 2026.


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