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Crônicas do Mente Madura - Há razões que custam caro demais.
Existe uma pergunta que faço a mim mesmo de tempos em tempos.
Quanto da minha vida eu já desperdicei tentando
estar certo?
Talvez você nunca tenha pensado nisso. Eu também não
pensava.
A gente costuma acreditar que ter razão é uma
virtude. Desde criança aprendemos a defender nossas ideias, justificar nossas
escolhas, explicar nossos motivos. Quase sem perceber, passamos a viver como
advogados de nós mesmos.
Sempre há um argumento a apresentar.
Uma explicação convincente.
Uma prova de que o outro foi injusto.
E, muitas vezes, estamos mesmo certos.
O curioso é que a vida parece não se impressionar
muito com isso.
Ela continua perguntando outra coisa.
O que sua razão preservou?
Essa pergunta me incomoda.
Porque, olhando para trás, percebo que algumas das
maiores perdas da minha vida não aconteceram por falta de argumentos.
Aconteceram justamente quando eu tinha argumentos demais.
Há conversas que terminam com um vencedor.
Mas deixam dois derrotados.
Há pessoas que conseguem provar cada ponto do que
dizem.
Mesmo assim, voltam para casa carregando um silêncio
que argumento nenhum consegue preencher.
Com o tempo fui percebendo que os relacionamentos
não adoecem apenas por causa da mentira, da traição ou da falta de amor.
Eles adoecem quando o desejo de ser compreendido
deixa de ser maior do que a necessidade de convencer.
É uma mudança quase imperceptível.
Primeiro deixamos de ouvir para compreender.
Depois passamos a ouvir apenas para responder.
Até que chega um momento em que já não estamos
conversando com a pessoa.
Estamos debatendo com a imagem que construímos dela.
Talvez seja por isso que tantas relações terminem
antes mesmo de acabar.
As pessoas continuam presentes.
Mas já não conseguem se encontrar.
E isso não acontece apenas entre casais.
Acontece entre pais e filhos.
Entre irmãos.
Entre amigos.
Entre colegas de trabalho.
Às vezes, acontece dentro de nós.
Porque também brigamos com a pessoa que fomos, com
as escolhas que fizemos e com a vida que imaginávamos ter.
Talvez amadurecer tenha menos a ver com colecionar
certezas e mais com aprender a fazer perguntas.
Nem toda verdade precisa ser dita naquele momento.
Nem toda resposta precisa ser dada.
Nem toda razão merece ser defendida.
Há momentos em que preservar uma pessoa vale mais do
que preservar um argumento.
Isso não significa concordar com tudo.
Nem abrir mão dos próprios valores.
Significa apenas reconhecer que existem vitórias que
empobrecem a alma.
E derrotas que nos tornam profundamente humanos.
Hoje, quando sinto vontade de vencer uma conversa,
procuro fazer uma pausa.
Não porque deixei de acreditar no que penso.
Mas porque aprendi que existe uma pergunta maior do
que "quem está certo?".
Ela é simples.
Depois que esta conversa terminar... o
que eu quero que permaneça entre nós?
Talvez essa seja uma das perguntas mais maduras que
alguém possa fazer.
Porque há razões que custam caro demais.
E, quase sempre, o preço não é pago no momento em
que insistimos em ter razão.
Ele aparece, silenciosamente, no vazio que fica
depois.
Ronaldo
Arouca
Mente Madura
Linhares ES 24 de Julho de 2026.
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