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Crônicas do Mente Madura - O dia em que Helena decidiu que o marido deveria ir embora.

  Helena não acordou naquela manhã pensando em se separar. Essa é a parte que quase ninguém entenderia depois. Quando contou às amigas o que havia acontecido, todas perguntaram: — Mas você já não estava pensando nisso há algum tempo? Não. Pelo menos não daquela maneira. Helena estava cansada. Isso, sim. Cansada de fazer contas. Cansada de abrir o aplicativo do banco antes de abrir as mensagens. Cansada de olhar para as despesas e perceber que o mês ainda estava longe de terminar. Cansada de trabalhar mais e continuar sentindo que o dinheiro nunca chegava. Cansada das parcelas. Dos compromissos. Das cobranças. Da sensação de que qualquer imprevisto poderia desmontar tudo. E havia outra coisa que ninguém via. Quando a pressão aumentava, o corpo de Helena mudava. O peito apertava. O estômago embrulhava. Os músculos ficavam rígidos. Ela perdia o sono. Às vezes, acordava no meio da madrugada com a sensação de que alguma coisa terrível estava...

Crônicas do Mente Madura - Quem segura as rédeas?

 




— Posso fazer uma pergunta?

— Claro.

— Você já viu um cavalo conduzindo o cavaleiro?

A pessoa sorriu.

— Nunca.

— Nem eu.

Ficamos alguns segundos em silêncio.

Às vezes, uma boa pergunta faz mais do que uma longa explicação.

Olhei pela janela. Havia um vento leve balançando as folhas das árvores. Tudo parecia seguir uma ordem muito simples. O vento soprava. As folhas dançavam. O tronco permanecia firme.

Então continuei.

— Curioso... ninguém espera que um cavalo decida para onde o cavaleiro deve ir. Nem que um barco escolha sozinho o destino da viagem. Nem que o volante diga ao motorista qual estrada seguir.

Ela me interrompeu.

— Mas comigo parece exatamente o contrário.

Sorri.

— É justamente por isso que estamos conversando.

Ela abaixou os olhos.

— Quando sinto medo, faço exatamente o que o medo manda. Quando sinto culpa, passo dias tentando compensar coisas que talvez nem fossem minha responsabilidade. Quando sinto carência, aceito situações que jamais aceitaria em paz.

Ficamos em silêncio outra vez.

Depois perguntei:

— Então... quem está conduzindo a sua vida?

Ela demorou alguns segundos para responder.

— Acho que nunca pensei nisso dessa forma.

Talvez essa seja uma das perguntas mais importantes que um adulto possa fazer a si mesmo.

Quem conduz a minha vida?

Porque a resposta nunca aparece apenas nas palavras.

Ela aparece nas escolhas.

Há pessoas extremamente inteligentes que entregam o volante da própria existência ao medo.

Outras entregam à culpa.

Algumas entregam à necessidade constante de aprovação.

Outras ainda vivem tentando adivinhar o que os outros esperam delas, como se a própria felicidade dependesse exclusivamente da satisfação alheia.

É curioso observar como isso acontece de maneira quase imperceptível.

Ninguém acorda numa segunda-feira dizendo:

"Hoje vou permitir que minhas emoções governem minha vida."

Isso acontece aos poucos.

Primeiro deixamos uma decisão para depois.

Depois evitamos uma conversa difícil.

Mais tarde aceitamos um limite que nunca deveria ter sido ultrapassado.

Quando percebemos, já estamos vivendo uma vida inteira construída para evitar desconfortos momentâneos.

Olhei novamente para ela.

— Você sabe qual é o problema dos sentimentos?

Ela respondeu rapidamente.

— Eles mudam.

— Exatamente.

Os sentimentos são excelentes conselheiros.

Mas péssimos governantes.

Eles revelam.

Avisam.

Sinalizam.

Mostram que algo precisa ser observado.

Mas não nasceram para decidir o destino da nossa vida.

Imagine um farol.

Quando a luz do painel do carro acende, ninguém quebra o painel.

Também ninguém entrega o volante ao farol.

A luz apenas informa que alguma coisa merece atenção.

Os sentimentos funcionam da mesma forma.

Eles são instrumentos de leitura.

Não instrumentos de direção.

Ela permaneceu em silêncio.

Era um daqueles silêncios que indicam que alguma peça acabou de se encaixar.

Continuei.

— O medo tem uma função importante.

Ele protege.

A tristeza também.

Ela convida à reflexão.

A raiva mostra que algum limite foi ultrapassado.

A alegria revela aquilo que faz sentido.

Cada emoção carrega uma mensagem.

O problema começa quando transformamos a mensagem em motorista.

Ela respirou fundo.

— Então eu não preciso lutar contra o que sinto?

— Pelo contrário.

Você precisa aprender a ouvir o que sente.

Mas quem decide o próximo passo é a parte mais madura de você.

Vi seus olhos mudarem.

Não era emoção.

Era compreensão.

Existe uma diferença enorme.

A emoção passa.

A compreensão permanece.

Lembrei-me de um velho navegador que certa vez descreveu o mar de uma forma muito bonita.

Ele dizia que ninguém controla o vento.

Mas todo bom marinheiro aprende a ajustar as velas.

Achei essa imagem perfeita.

Porque a vida nunca nos dará controle absoluto sobre aquilo que sentimos.

Os ventos continuarão mudando.

Alguns dias serão leves.

Outros difíceis.

Alguns trarão entusiasmo.

Outros, insegurança.

Isso faz parte da condição humana.

A verdadeira maturidade aparece quando aprendemos a ajustar as velas sem perder o rumo.

Não porque o mar ficou mais fácil.

Mas porque o timão continua nas mãos certas.

Ela sorriu pela primeira vez durante a conversa.

— Acho que passei muitos anos tentando mudar o vento.

Sorri também.

— E como foi?

Ela riu.

— Cansativo.

Ficamos olhando a paisagem por alguns instantes.

Então fiz a última pergunta.

— Se hoje você pudesse escolher apenas uma mudança, qual seria?

Ela respondeu sem hesitar.

— Quero voltar a conduzir a minha própria vida.

Naquele instante percebi que a sessão havia terminado muito antes do relógio marcar o fim.

Porque existe um momento em que uma pessoa deixa de procurar respostas prontas.

Ela apenas assume o lugar que sempre foi dela.

O lugar de quem conduz.

Talvez seja isso que chamamos de maturidade.

Não a ausência de emoções.

Nem a promessa de uma vida sem conflitos.

 

Maturidade é descobrir que os sentimentos merecem ser escutados, mas as decisões pertencem à consciência.

É compreender que o medo pode sentar ao nosso lado durante a viagem, mas o volante continua em nossas mãos.

É perceber que a culpa pode bater à porta, sem receber as chaves da casa.

É caminhar com serenidade, sabendo que cada escolha fortalece a pessoa que estamos nos tornando.

No fim das contas, toda vida deixa marcas.

A pergunta nunca foi se sentiremos medo, tristeza ou insegurança.

A pergunta sempre será outra.

Quem está segurando as rédeas?

 

Ronaldo Arouca
Mente Madura

Linhares ES 02 de Agosto de 2026.

 


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