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Crônicas do Mente Madura - O dia em que Helena decidiu que o marido deveria ir embora.

  Helena não acordou naquela manhã pensando em se separar. Essa é a parte que quase ninguém entenderia depois. Quando contou às amigas o que havia acontecido, todas perguntaram: — Mas você já não estava pensando nisso há algum tempo? Não. Pelo menos não daquela maneira. Helena estava cansada. Isso, sim. Cansada de fazer contas. Cansada de abrir o aplicativo do banco antes de abrir as mensagens. Cansada de olhar para as despesas e perceber que o mês ainda estava longe de terminar. Cansada de trabalhar mais e continuar sentindo que o dinheiro nunca chegava. Cansada das parcelas. Dos compromissos. Das cobranças. Da sensação de que qualquer imprevisto poderia desmontar tudo. E havia outra coisa que ninguém via. Quando a pressão aumentava, o corpo de Helena mudava. O peito apertava. O estômago embrulhava. Os músculos ficavam rígidos. Ela perdia o sono. Às vezes, acordava no meio da madrugada com a sensação de que alguma coisa terrível estava...

Crônicas do Mente Madura - A plateia que ficou para trás.

 




O banco da praça já era velho.

A tinta verde, descascada pelo tempo, revelava camadas de outras pinturas, como se cada geração tivesse tentado lhe devolver a juventude sem conseguir apagar a história que carregava.

O avô gostava daquele banco.

Sentava-se ali sempre no fim da tarde, quando o sol começava a se despedir sem fazer alarde.

Naquele dia, o neto chegou diferente.

Trazia o corpo de quem tinha apenas dezessete anos, mas os ombros de quem carregava muito mais peso do que deveria.

Sentou-se ao lado do avô e permaneceu alguns minutos olhando para o chão.

O velho não perguntou nada.

Aprendera, depois de tantos anos, que algumas pessoas precisam primeiro sentir que existe silêncio suficiente para poder falar.

Foi o neto quem rompeu aquele silêncio.

— O senhor já teve a sensação de que nunca consegue agradar todo mundo?

O avô sorriu de leve.

Não porque a pergunta fosse simples.

Mas porque ela era antiga.

Muito antiga.

Talvez tão antiga quanto a própria humanidade.

— Todos os dias, quando eu tinha a sua idade.

O rapaz respirou fundo.

— Eu faço de tudo para ninguém ficar chateado comigo. Se digo o que penso, alguém se incomoda. Se fico quieto, parece que estou sendo falso. Se escolho um caminho, decepciono quem esperava outro.

Fez uma pausa.

— É cansativo.

O avô olhou para as árvores da praça antes de responder.

— Sabe qual foi o maior erro da minha juventude?

O neto balançou a cabeça.

— Achei que viver era administrar expectativas.

O rapaz franziu a testa.

— Como assim?

— Passei muitos anos perguntando o que esperavam de mim antes de perguntar o que era verdadeiro para mim.

O vento atravessou a praça.

Algumas folhas secas deslizaram pelo chão.

O velho continuou.

— Escolhi um trabalho para deixar meu pai orgulhoso.

Escolhi amizades para ser aceito.

Em muitos momentos, até fiquei calado para evitar conflitos.

Por fora, parecia um homem equilibrado.

Por dentro...

Sorriu sem alegria.

— Eu nem sabia mais quem estava vivendo aquela vida.

O neto permaneceu em silêncio.

Havia algo naquela confissão que doía.

Talvez porque reconhecesse um pouco de si mesmo nela.

— Mas o senhor era feliz?

O velho demorou alguns segundos.

— Eu era aprovado.

São coisas bem diferentes.

A resposta ficou suspensa entre os dois.

Como acontece quando uma frase encontra um lugar onde permanecer.

Depois de algum tempo, o rapaz perguntou:

— Quando isso mudou?

O avô apoiou as mãos na bengala.

— Não mudou de uma vez.

A vida foi me cansando.

Percebi que cada pessoa queria uma versão diferente de mim.

Para um, eu precisava ser mais forte.

Para outro, mais sensível.

Para um terceiro, mais ambicioso.

Depois apareceu quem dizia que eu deveria pensar menos em mim.

Logo em seguida veio quem dizia exatamente o contrário.

O velho deu uma pequena risada.

— Descobri que, se tentasse atender a todos, passaria a vida inteira mudando de personagem.

O neto olhou para ele.

— E o que o senhor fez?

— Pela primeira vez, fiz uma pergunta diferente.

— Qual?

— Se ninguém pudesse opinar... como eu escolheria viver?

O rapaz permaneceu olhando para o horizonte.

A pergunta parecia simples.

Mas nunca havia pensado nela.

Viviam perguntando o que ele queria estudar.

Onde queria trabalhar.

Com quem queria namorar.

Como queria se vestir.

Mas quase todas essas perguntas vinham acompanhadas de expectativas.

Nunca eram realmente livres.

— Deve ter sido difícil.

O avô concordou.

— Muito.

Porque quando você muda, nem todo mundo comemora.

Algumas pessoas preferem a versão de você que dizia "sim" para tudo.

Outras sentem falta daquele que vivia pedindo desculpas até por existir.

O neto abaixou os olhos.

— Então valeu a pena perder essas pessoas?

O velho virou lentamente o rosto.

Havia ternura no olhar.

— Eu não perdi as pessoas.

Perdi os personagens que eu interpretava para que elas gostassem de mim.

O rapaz ficou imóvel.

Era uma resposta impossível de esquecer.

O avô prosseguiu.

— Quem realmente nos ama pode estranhar as nossas mudanças.

Pode até sofrer por um tempo.

Mas aprende a conhecer quem somos de verdade.

Quem só amava a máscara vai embora quando ela cai.

E tudo bem.

O silêncio voltou.

Desta vez, era um silêncio diferente.

Não era vazio.

Era cheio de pensamento.

Algumas crianças atravessavam a praça correndo.

Um casal caminhava de mãos dadas.

Um cachorro perseguia um pombo sem qualquer chance de alcançá-lo.

A vida seguia.

Como sempre segue.

O velho apontou para uma árvore enorme perto do banco.

— Está vendo aquela árvore?

— Estou.

— Você acha que ela pediu licença para crescer?

O rapaz sorriu.

— Claro que não.

— Ela apenas procurou a luz.

O neto acompanhou o desenho dos galhos contra o céu.

O avô continuou.

— Cresceu para onde precisava crescer.

Alguns gostaram da sombra.

Outros reclamaram das folhas.

Teve quem achasse que ela ocupava espaço demais.

Mesmo assim...

Ela continuou crescendo.

O rapaz respirou lentamente.

— Então a gente nunca vai agradar todo mundo.

O velho respondeu quase num sussurro.

— Nem deve.

Quem tenta agradar a todos costuma abandonar justamente a pessoa que mais precisava proteger.

A si mesmo.

Os dois permaneceram olhando a árvore.

O vento fazia as folhas conversarem entre si.

— Sabe o que descobri depois de velho?

— O quê?

— Paz não é quando todos concordam com você.

Paz é quando você consegue dormir sem precisar pedir desculpas por ser quem é.

O rapaz sentiu um nó na garganta.

Lembrou das escolhas adiadas.

Das opiniões que nunca expressou.

Das vezes em que aceitou caminhos apenas para não decepcionar alguém.

Percebeu que o peso que carregava talvez não fosse excesso de responsabilidades.

Talvez fosse excesso de personagens.

O avô levantou-se devagar.

Estendeu a mão ao neto.

— Vamos?

O rapaz levantou também.

Os dois começaram a caminhar pela praça.

Sem pressa.

Sem necessidade de preencher o silêncio.

Antes de atravessarem o portão, o neto fez uma última pergunta.

— O senhor sente falta da plateia?

O velho sorriu.

Daqueles sorrisos que só aparecem depois de uma vida inteira.

— Às vezes.

Mas nunca senti falta da paz que encontrei depois que ela foi embora.

Continuaram andando.

O sol desaparecia lentamente atrás das árvores.

O rapaz guardou o celular no bolso sem sequer olhar para a tela.

Pela primeira vez em muito tempo, não parecia preocupado com quem estava observando seus passos.

Estava apenas aprendendo a caminhar com eles.

E talvez seja isso que chamamos de amadurecer.

Não conquistar a aprovação de todos.

Mas chegar ao dia em que a própria consciência finalmente se torna um lugar bom para morar.

Ronaldo Arouca
Mente Madura

Linhares ES 07 de Agosto de 2026.


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