Pesquisar este blog
Explore seu desenvolvimento emocional, psicológico e intelectual. Um espaço acolhedor e inspirador para homens e mulheres de todas as idades buscarem autoconhecimento e bem-estar. Compartilhamos conhecimento e reflexões para nutrir sua mente e espírito em sua jornada de evolução pessoal. Aprenda, questione e floresça conosco.
Destaques
- Gerar link
- X
- Outros aplicativos
Crônicas do Mente Madura - O lugar que ela deixou de frequentar.
Durante quase dez anos, ela passou pela mesma praça
todas as manhãs.
Era caminho para o trabalho.
Conhecia a banca de jornal, a padaria da esquina, o
senhor que passeava com dois cachorros e até a árvore enorme que fazia sombra
no banco onde, algumas vezes, parava para tomar um café.
Até o dia em que aconteceu.
Depois daquele episódio, ela deixou de passar por
ali.
No começo, pareceu uma decisão simples.
Havia outro caminho.
Levava apenas alguns minutos a mais.
Depois vieram outras pequenas mudanças.
Começou a recusar alguns convites.
Deixou de frequentar determinados lugares.
Algumas situações passaram a provocar uma sensação
que ela preferia evitar.
E evitar funcionava.
Era isso que tornava tudo tão difícil de perceber.
Quando dizia “não vou”, sentia alívio.
Quando ficava em casa, sentia segurança.
Quando escolhia outro caminho, o corpo relaxava.
Então, naturalmente, continuava fazendo.
Até que, certa tarde, percebeu que fazia meses que
não entrava em um restaurante que adorava.
Não havia acontecido nada novo.
Ela simplesmente tinha começado a evitar.
Foi quando uma amiga perguntou:
— Você está percebendo quantas coisas deixou de
fazer?
Ela respondeu quase automaticamente:
— Eu só estou me preservando.
A frase ficou na cabeça.
Me preservando.
Era exatamente assim que enxergava aquilo.
Não estava fugindo.
Estava se cuidando.
Mas, naquela noite, começou a fazer uma conta
diferente.
Quantos lugares?
Quantas pessoas?
Quantas oportunidades?
Quantas experiências haviam ficado pelo caminho?
E percebeu que o problema já não estava apenas no
que havia acontecido anos antes.
Estava também na vida que ela vinha construindo ao
redor daquele acontecimento.
Uma vida cuidadosamente organizada para evitar
determinadas sensações.
Foi quando decidiu procurar ajuda.
Na primeira conversa, esperava ouvir alguma técnica
para conseguir controlar o medo.
Encontrou outra coisa.
Encontrou espaço para compreender o que havia
acontecido, o que ainda era despertado por determinadas situações e por que
evitar havia se tornado uma estratégia tão poderosa.
Percebeu que o alívio era real.
Mas também percebeu o preço dele.
Cada vez que evitava alguma coisa, confirmava para
si mesma que aquela coisa era perigosa demais para ser enfrentada.
O trabalho começou justamente aí.
Sem pressa.
Sem obrigá-la a esquecer o que viveu.
Sem transformar coragem em uma disputa contra o
próprio medo.
Ela começou a recuperar, pouco a pouco, aquilo que
havia entregado à esquiva.
Um convite aceito.
Um lugar visitado.
Uma conversa que antes seria evitada.
Até que, alguns meses depois, passou novamente pela
praça.
Parou diante da árvore.
O banco continuava ali.
A padaria também.
Os dois cachorros já não eram os mesmos.
Ela sentiu o velho desconforto.
Respirou.
E continuou.
Não porque tivesse apagado o passado.
Mas porque já não precisava organizar toda a sua
vida em torno dele.
Sentou no banco e tomou um café.
Ficou ali por alguns minutos.
Depois sorriu.
A praça nunca havia sido o verdadeiro problema.
O que precisava ser recuperado era a liberdade de
estar nela.
E foi naquele momento que compreendeu uma diferença
que mudou sua relação com o próprio passado:
proteger-se é necessário. Viver se
protegendo de tudo aquilo que lembra uma dor é outra coisa.
Quando a proteção começa a escolher por você os
lugares onde pode ir, as pessoas que pode encontrar e as experiências que pode
viver, talvez seja hora de buscar ajuda.
Porque recuperar a própria vida não significa
esquecer o que aconteceu.
Significa poder escolher novamente o que fazer com a
vida que veio depois.
Ronaldo Arouca — Mente Madura
Ronaldo
Arouca
Mente Madura
Regência Augusta ES
20 de Agosto de 2026.
- Gerar link
- X
- Outros aplicativos
Postagens mais visitadas
O Compasso do Imprevisto: Por que Viver é Melhor que Calcular.
- Gerar link
- X
- Outros aplicativos

Comentários
Postar um comentário