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Crônicas do Mente Madura - O dia em que Helena decidiu que o marido deveria ir embora.

  Helena não acordou naquela manhã pensando em se separar. Essa é a parte que quase ninguém entenderia depois. Quando contou às amigas o que havia acontecido, todas perguntaram: — Mas você já não estava pensando nisso há algum tempo? Não. Pelo menos não daquela maneira. Helena estava cansada. Isso, sim. Cansada de fazer contas. Cansada de abrir o aplicativo do banco antes de abrir as mensagens. Cansada de olhar para as despesas e perceber que o mês ainda estava longe de terminar. Cansada de trabalhar mais e continuar sentindo que o dinheiro nunca chegava. Cansada das parcelas. Dos compromissos. Das cobranças. Da sensação de que qualquer imprevisto poderia desmontar tudo. E havia outra coisa que ninguém via. Quando a pressão aumentava, o corpo de Helena mudava. O peito apertava. O estômago embrulhava. Os músculos ficavam rígidos. Ela perdia o sono. Às vezes, acordava no meio da madrugada com a sensação de que alguma coisa terrível estava...

Crônicas do Mente Madura - O lugar que ela deixou de frequentar.

 




Durante quase dez anos, ela passou pela mesma praça todas as manhãs.

Era caminho para o trabalho.

Conhecia a banca de jornal, a padaria da esquina, o senhor que passeava com dois cachorros e até a árvore enorme que fazia sombra no banco onde, algumas vezes, parava para tomar um café.

Até o dia em que aconteceu.

Depois daquele episódio, ela deixou de passar por ali.

No começo, pareceu uma decisão simples.

Havia outro caminho.

Levava apenas alguns minutos a mais.

Depois vieram outras pequenas mudanças.

Começou a recusar alguns convites.

Deixou de frequentar determinados lugares.

Algumas situações passaram a provocar uma sensação que ela preferia evitar.

E evitar funcionava.

Era isso que tornava tudo tão difícil de perceber.

Quando dizia “não vou”, sentia alívio.

Quando ficava em casa, sentia segurança.

Quando escolhia outro caminho, o corpo relaxava.

Então, naturalmente, continuava fazendo.

Até que, certa tarde, percebeu que fazia meses que não entrava em um restaurante que adorava.

Não havia acontecido nada novo.

Ela simplesmente tinha começado a evitar.

Foi quando uma amiga perguntou:

— Você está percebendo quantas coisas deixou de fazer?

Ela respondeu quase automaticamente:

— Eu só estou me preservando.

A frase ficou na cabeça.

Me preservando.

Era exatamente assim que enxergava aquilo.

Não estava fugindo.

Estava se cuidando.

Mas, naquela noite, começou a fazer uma conta diferente.

Quantos lugares?

Quantas pessoas?

Quantas oportunidades?

Quantas experiências haviam ficado pelo caminho?

E percebeu que o problema já não estava apenas no que havia acontecido anos antes.

Estava também na vida que ela vinha construindo ao redor daquele acontecimento.

Uma vida cuidadosamente organizada para evitar determinadas sensações.

Foi quando decidiu procurar ajuda.

Na primeira conversa, esperava ouvir alguma técnica para conseguir controlar o medo.

Encontrou outra coisa.

Encontrou espaço para compreender o que havia acontecido, o que ainda era despertado por determinadas situações e por que evitar havia se tornado uma estratégia tão poderosa.

Percebeu que o alívio era real.

Mas também percebeu o preço dele.

Cada vez que evitava alguma coisa, confirmava para si mesma que aquela coisa era perigosa demais para ser enfrentada.

O trabalho começou justamente aí.

Sem pressa.

Sem obrigá-la a esquecer o que viveu.

Sem transformar coragem em uma disputa contra o próprio medo.

Ela começou a recuperar, pouco a pouco, aquilo que havia entregado à esquiva.

Um convite aceito.

Um lugar visitado.

Uma conversa que antes seria evitada.

Até que, alguns meses depois, passou novamente pela praça.

Parou diante da árvore.

O banco continuava ali.

A padaria também.

Os dois cachorros já não eram os mesmos.

Ela sentiu o velho desconforto.

Respirou.

E continuou.

Não porque tivesse apagado o passado.

Mas porque já não precisava organizar toda a sua vida em torno dele.

Sentou no banco e tomou um café.

Ficou ali por alguns minutos.

Depois sorriu.

A praça nunca havia sido o verdadeiro problema.

O que precisava ser recuperado era a liberdade de estar nela.

E foi naquele momento que compreendeu uma diferença que mudou sua relação com o próprio passado:

proteger-se é necessário. Viver se protegendo de tudo aquilo que lembra uma dor é outra coisa.

Quando a proteção começa a escolher por você os lugares onde pode ir, as pessoas que pode encontrar e as experiências que pode viver, talvez seja hora de buscar ajuda.

Porque recuperar a própria vida não significa esquecer o que aconteceu.

Significa poder escolher novamente o que fazer com a vida que veio depois.

Ronaldo Arouca — Mente Madura

 

Ronaldo Arouca
Mente Madura

Regência Augusta ES

20 de Agosto de 2026.

 


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