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Crônicas do Mente Madura - O alarme.
Um alarme tem uma função simples:
avisar quando existe perigo.
Quando ele toca, ninguém reclama.
A gente levanta.
Acende a luz.
Verifica a porta.
Procura saber o que aconteceu.
Depois que o perigo passa, o alarme deveria
silenciar.
Imagine, porém, um alarme que continua tocando.
Primeiro, você estranha.
Depois se acostuma.
Começa a dormir com um ouvido atento.
Qualquer ruído faz você levantar.
Uma porta bate.
O telefone toca.
Alguém demora para chegar.
E o alarme dispara novamente.
Com o tempo, você já nem percebe mais o barulho.
Apenas vive preparado.
O corpo permanece contraído.
A mandíbula apertada.
Os ombros elevados.
O sono fica leve.
A cabeça continua trabalhando quando deveria
descansar.
E, curiosamente, você pode até receber elogios por
isso.
“Você é muito atento.”
“Você pensa em tudo.”
“Com você nada passa despercebido.”
Mas existe uma diferença entre estar atento e viver
em estado de alerta.
O primeiro é uma capacidade.
O segundo pode se tornar um cansaço.
Foi assim que um homem percebeu que alguma coisa
estava errada.
Não aconteceu em um momento dramático.
Aconteceu numa manhã comum.
Ele acordou com a mandíbula dolorida.
Passou a mão no rosto e ficou alguns segundos
tentando entender.
Depois lembrou que havia feito aquilo durante toda a
noite.
Apertado os dentes.
Como se precisasse se preparar para alguma coisa.
Só que não havia nada acontecendo.
A casa estava silenciosa.
A manhã estava tranquila.
O perigo não estava ali.
Mas o alarme estava.
Foi então que começou a prestar atenção em outras
coisas.
Há quanto tempo dormia mal?
Há quanto tempo não conseguia simplesmente sentar
sem pensar no que poderia acontecer depois?
Há quanto tempo confundia preocupação com
responsabilidade?
Ele percebeu que passara tanto tempo tentando
descobrir o que poderia dar errado que nunca havia perguntado por que
precisava permanecer preparado o tempo inteiro.
Foi essa pergunta que o levou a procurar ajuda.
E, no processo, descobriu algo que parecia simples,
mas mudou sua maneira de olhar para si mesmo:
não era preciso encontrar um novo perigo
todos os dias para continuar vivendo como se houvesse um.
Algumas experiências deixam o sistema de proteção
trabalhando além da hora.
O acontecimento passa.
A vida muda.
Mas o organismo continua esperando o próximo sinal.
Aprender a reconhecer esse estado foi o começo.
Aprender a desligar o alarme foi outra parte da
história.
Porque ninguém consegue descansar enquanto acredita
que precisa permanecer de prontidão.
E talvez uma das formas mais silenciosas de
sofrimento seja justamente essa:
ter segurança ao redor e continuar
vivendo como se ela pudesse desaparecer a qualquer instante.
Há um momento em que a vida pede menos vigilância e
mais presença.
O alarme pode ter sido importante.
Pode até ter salvado você de alguma coisa.
Mas ele foi feito para avisar sobre o perigo.
Não para tocar a vida inteira.
Ronaldo
Arouca
Mente Madura
Regência Augusta ES
22 de Agosto de 2026.
Ronaldo Arouca — Mente Madura
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