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Crônicas do Mente Madura - O dia em que Helena decidiu que o marido deveria ir embora.

  Helena não acordou naquela manhã pensando em se separar. Essa é a parte que quase ninguém entenderia depois. Quando contou às amigas o que havia acontecido, todas perguntaram: — Mas você já não estava pensando nisso há algum tempo? Não. Pelo menos não daquela maneira. Helena estava cansada. Isso, sim. Cansada de fazer contas. Cansada de abrir o aplicativo do banco antes de abrir as mensagens. Cansada de olhar para as despesas e perceber que o mês ainda estava longe de terminar. Cansada de trabalhar mais e continuar sentindo que o dinheiro nunca chegava. Cansada das parcelas. Dos compromissos. Das cobranças. Da sensação de que qualquer imprevisto poderia desmontar tudo. E havia outra coisa que ninguém via. Quando a pressão aumentava, o corpo de Helena mudava. O peito apertava. O estômago embrulhava. Os músculos ficavam rígidos. Ela perdia o sono. Às vezes, acordava no meio da madrugada com a sensação de que alguma coisa terrível estava...

Crônicas do Mente Madura - O alarme.

 




Um alarme tem uma função simples:

avisar quando existe perigo.

Quando ele toca, ninguém reclama.

A gente levanta.

Acende a luz.

Verifica a porta.

Procura saber o que aconteceu.

Depois que o perigo passa, o alarme deveria silenciar.

Imagine, porém, um alarme que continua tocando.

Primeiro, você estranha.

Depois se acostuma.

Começa a dormir com um ouvido atento.

Qualquer ruído faz você levantar.

Uma porta bate.

O telefone toca.

Alguém demora para chegar.

E o alarme dispara novamente.

Com o tempo, você já nem percebe mais o barulho.

Apenas vive preparado.

O corpo permanece contraído.

A mandíbula apertada.

Os ombros elevados.

O sono fica leve.

A cabeça continua trabalhando quando deveria descansar.

E, curiosamente, você pode até receber elogios por isso.

“Você é muito atento.”

“Você pensa em tudo.”

“Com você nada passa despercebido.”

Mas existe uma diferença entre estar atento e viver em estado de alerta.

O primeiro é uma capacidade.

O segundo pode se tornar um cansaço.

Foi assim que um homem percebeu que alguma coisa estava errada.

Não aconteceu em um momento dramático.

Aconteceu numa manhã comum.

Ele acordou com a mandíbula dolorida.

Passou a mão no rosto e ficou alguns segundos tentando entender.

Depois lembrou que havia feito aquilo durante toda a noite.

Apertado os dentes.

Como se precisasse se preparar para alguma coisa.

Só que não havia nada acontecendo.

A casa estava silenciosa.

A manhã estava tranquila.

O perigo não estava ali.

Mas o alarme estava.

Foi então que começou a prestar atenção em outras coisas.

Há quanto tempo dormia mal?

Há quanto tempo não conseguia simplesmente sentar sem pensar no que poderia acontecer depois?

Há quanto tempo confundia preocupação com responsabilidade?

Ele percebeu que passara tanto tempo tentando descobrir o que poderia dar errado que nunca havia perguntado por que precisava permanecer preparado o tempo inteiro.

Foi essa pergunta que o levou a procurar ajuda.

E, no processo, descobriu algo que parecia simples, mas mudou sua maneira de olhar para si mesmo:

não era preciso encontrar um novo perigo todos os dias para continuar vivendo como se houvesse um.

Algumas experiências deixam o sistema de proteção trabalhando além da hora.

O acontecimento passa.

A vida muda.

Mas o organismo continua esperando o próximo sinal.

Aprender a reconhecer esse estado foi o começo.

Aprender a desligar o alarme foi outra parte da história.

Porque ninguém consegue descansar enquanto acredita que precisa permanecer de prontidão.

E talvez uma das formas mais silenciosas de sofrimento seja justamente essa:

ter segurança ao redor e continuar vivendo como se ela pudesse desaparecer a qualquer instante.

Há um momento em que a vida pede menos vigilância e mais presença.

O alarme pode ter sido importante.

Pode até ter salvado você de alguma coisa.

Mas ele foi feito para avisar sobre o perigo.

Não para tocar a vida inteira.

 

Ronaldo Arouca
Mente Madura

Regência Augusta ES

22 de Agosto de 2026.

Ronaldo Arouca — Mente Madura

 


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