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Crônicas do Mente Madura - O dia em que Helena decidiu que o marido deveria ir embora.

  Helena não acordou naquela manhã pensando em se separar. Essa é a parte que quase ninguém entenderia depois. Quando contou às amigas o que havia acontecido, todas perguntaram: — Mas você já não estava pensando nisso há algum tempo? Não. Pelo menos não daquela maneira. Helena estava cansada. Isso, sim. Cansada de fazer contas. Cansada de abrir o aplicativo do banco antes de abrir as mensagens. Cansada de olhar para as despesas e perceber que o mês ainda estava longe de terminar. Cansada de trabalhar mais e continuar sentindo que o dinheiro nunca chegava. Cansada das parcelas. Dos compromissos. Das cobranças. Da sensação de que qualquer imprevisto poderia desmontar tudo. E havia outra coisa que ninguém via. Quando a pressão aumentava, o corpo de Helena mudava. O peito apertava. O estômago embrulhava. Os músculos ficavam rígidos. Ela perdia o sono. Às vezes, acordava no meio da madrugada com a sensação de que alguma coisa terrível estava...

Crônicas do Mente Madura - A memória que ainda mandava nela.

 


Laura tinha 54 anos quando percebeu uma coisa que a incomodou mais do que o próprio medo:

ela ainda obedecia a um homem que não fazia parte da vida dela havia quinze anos.

Ele não ligava.

Não aparecia.

Não ameaçava.

Não estava em lugar nenhum.

Mas bastava uma porta bater com força para o corpo de Laura entrar em estado de alerta.

Naquela noite, aconteceu novamente.

Ela estava na casa da filha, comemorando o aniversário do neto.

Música, gente conversando, crianças correndo.

Até que uma porta bateu na cozinha.

O som foi seco.

Laura congelou.

O coração disparou.

A respiração mudou.

Ela procurou a saída.

A filha percebeu.

— Mãe?

— Estou bem.

Mas não estava.

Porque aquele som não era apenas um som.

Era uma memória.

E, dentro daquela memória, havia quinze anos de casamento.

Havia gritos.

Controle.

Ameaças.

Violência.

Havia uma mulher que aprendera a identificar o perigo antes que ele acontecesse.

Laura havia saído daquela casa quinze anos antes.

Reconstruiu a vida.

Criou os filhos.

Trabalhou.

Amou novamente.

Riu.

Viajava.

Parecia ter superado.

Mas aquela porta ainda conseguia levá-la de volta.

Naquela madrugada, Laura não dormiu.

E, pela primeira vez, parou de fazer a pergunta que repetira durante anos:

“Por que eu ainda sou assim?”

A pergunta mudou.

“O que ainda está acontecendo dentro de mim?”

No dia seguinte, procurou ajuda.

Mas não procurou simplesmente alguém para conversar.

Ela já havia conversado.

Já havia contado a história.

Já havia entendido racionalmente o que tinha vivido.

Sabia que não era culpada.

Sabia que deveria ter ido embora.

Sabia que tinha sido vítima de violência.

Saber não havia sido suficiente.

Laura precisava trabalhar aquilo que ainda estava preso à experiência.

Precisava de alguém que conhecesse trauma.

Que soubesse reconhecer uma memória traumática.

Que soubesse trabalhar a emoção associada a ela.

Que soubesse como fazer o cérebro deixar de tratar aquela lembrança como uma ameaça presente.

E foi aí que começou uma diferença fundamental.

Ela não estava mais tentando aprender a conviver com o medo.

Estava tratando a origem daquela reação.


O tratamento não consistiu em ensinar Laura a respirar quando uma porta batesse.

Não consistiu em dizer:

“Quando sentir medo, lembre-se de que está segura.”

Não consistiu em pedir que ela fosse forte.

O objetivo era outro.

Processar a experiência.

Trabalhar a memória.

Trabalhar a emoção presa à memória.

Separar o acontecimento passado da resposta emocional que continuava ativa no presente.

E, quando aquela experiência deixou de carregar a mesma carga emocional, alguma coisa mudou.

Não foi uma vitória sobre o medo.

Foi mais simples.

O medo deixou de aparecer daquela maneira.

A lembrança continuava existindo.

Laura sabia o que havia acontecido.

Não apagou quinze anos da própria história.

Mas lembrar deixou de significar reviver.

A memória passou a ser memória.

Não ameaça.

Não alarme.

Não presente.

Passado.


Algum tempo depois, Laura estava novamente na casa da filha.

Uma porta bateu.

Ela ouviu.

Virou o rosto.

E continuou conversando.

Sem coração disparado.

Sem procurar a saída.

Sem precisar respirar fundo para suportar.

Sem lutar contra nada.

O som simplesmente foi um som.

Ela não precisou vencer o medo.

O medo não veio.

E foi naquele instante que Laura compreendeu a diferença entre aprender a conviver com uma ferida e tratar aquilo que mantém a ferida aberta.


Existe uma coisa que precisa ser dita com clareza sobre trauma:

entender não é o mesmo que processar.

Uma mulher pode saber exatamente o que aconteceu.

Pode contar a história inteira.

Pode compreender intelectualmente que aquilo terminou.

Pode saber que hoje está segura.

E ainda assim carregar uma resposta emocional que pertence àquele acontecimento.

É por isso que simplesmente conversar nem sempre resolve.

E é por isso que trauma não deve ser tratado como se fosse apenas uma questão de pensamento positivo, força de vontade ou capacidade de seguir em frente.

É preciso saber o que está sendo tratado.

E, principalmente, saber como tratar.

Quando existe uma experiência traumática persistindo no presente, procurar ajuda especializada não é exagero.

É necessidade.

Porque ninguém deveria passar o resto da vida organizando suas escolhas para evitar aquilo que o próprio corpo aprendeu a temer.

Laura não precisava esquecer o que viveu.

Também não precisava aprender a conviver para sempre com aquilo.

Ela precisava que aquela experiência deixasse de comandar sua vida.

E foi isso que mudou.

A história permaneceu.
A prisão terminou.

 

Ronaldo Arouca
Mente Madura

Regência Augusta ES

18 de Agosto de 2026.

 


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