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Crônicas do Mente Madura - O dia em que Helena decidiu que o marido deveria ir embora.

  Helena não acordou naquela manhã pensando em se separar. Essa é a parte que quase ninguém entenderia depois. Quando contou às amigas o que havia acontecido, todas perguntaram: — Mas você já não estava pensando nisso há algum tempo? Não. Pelo menos não daquela maneira. Helena estava cansada. Isso, sim. Cansada de fazer contas. Cansada de abrir o aplicativo do banco antes de abrir as mensagens. Cansada de olhar para as despesas e perceber que o mês ainda estava longe de terminar. Cansada de trabalhar mais e continuar sentindo que o dinheiro nunca chegava. Cansada das parcelas. Dos compromissos. Das cobranças. Da sensação de que qualquer imprevisto poderia desmontar tudo. E havia outra coisa que ninguém via. Quando a pressão aumentava, o corpo de Helena mudava. O peito apertava. O estômago embrulhava. Os músculos ficavam rígidos. Ela perdia o sono. Às vezes, acordava no meio da madrugada com a sensação de que alguma coisa terrível estava...

Crônicas do Mente Madura - A janela que nunca foi aberta.

 



— Você já reparou que a gente passa a vida procurando respostas?

— Já. E quanto mais a gente procura, menos encontra.

— Talvez porque esteja procurando no lugar errado.

Os dois ficaram em silêncio por alguns segundos. O café esfriava sobre a mesa, enquanto a chuva desenhava caminhos tortos no vidro da janela.

— Sabe o que eu acho curioso? — perguntou o homem mais velho.

— O quê?

— Quando uma pessoa quebra a perna, ninguém discute que ela precisa descobrir onde foi a fratura. Mas quando a dor é da alma, quase todo mundo acredita que basta aprender a conviver com ela.

O outro sorriu, como quem reconhece alguma verdade antiga.

— Talvez porque ninguém consiga enxergar uma fratura na alma.

— Será?

— Você acha que consegue?

O mais velho não respondeu imediatamente. Levantou-se, caminhou até a janela e passou os dedos pelo vidro embaçado.

— Está vendo essa janela?

— Estou.

— O que existe do outro lado?

— Uma rua.

— Tem certeza?

— Claro.

— Não. Você sabe porque já viu essa rua antes. Mas agora... neste instante... você não está vendo rua nenhuma. Está vendo apenas um vidro molhado.

O silêncio voltou.

— A nossa vida é muito parecida com essa janela. Quase nunca enxergamos as coisas como elas realmente são. Enxergamos aquilo que o vidro permite mostrar.

— Então nunca sabemos a verdade?

— Sabemos. Mas ela exige uma disposição que pouca gente tem.

— Qual?

— Limpar o vidro.

O rapaz riu.

— Você gosta dessas metáforas.

— Gosto porque elas são honestas.

Sentou-se novamente.

Pegou a xícara.

Tomou um gole já frio.

— Você sabe por que tanta gente permanece presa ao mesmo sofrimento durante anos?

— Porque a vida é difícil?

— A vida é difícil para todos. Mas isso não explica por que duas pessoas vivem situações parecidas e uma segue em frente enquanto a outra permanece aprisionada.

— Então qual é a diferença?

— Percepção.

A palavra ficou suspensa no ar.

— Quem não percebe... repete.

— Repete o quê?

— Os mesmos relacionamentos.

As mesmas escolhas.

As mesmas discussões.

Os mesmos medos.

As mesmas desculpas.

É como trocar os móveis de lugar dentro da mesma casa acreditando que mudou de endereço.

O rapaz abaixou os olhos.

Parecia procurar alguma lembrança.

— Você já fez isso?

— Muitas vezes.

— Eu também.

Os dois sorriram.

Havia um certo alívio em descobrir que ninguém ali precisava fingir ser perfeito.

— Existe uma coisa que sempre me intrigou — continuou o mais velho.

— O quê?

— As pessoas acreditam que perceber é uma questão de inteligência.

Mas não é.

Perceber é uma questão de coragem.

— Coragem?

— Sim.

Porque perceber quase sempre obriga você a abandonar uma história que passou anos contando para si mesmo.

E isso dói.

Muito.

O rapaz ficou olhando para o próprio reflexo na janela.

— Acho que entendi.

— Tem certeza?

— Acho que sim.

— Então me diga.

Ele respirou fundo antes de responder.

— Às vezes eu prefiro acreditar numa explicação conhecida do que descobrir uma verdade que vai exigir mudança.

O mais velho sorriu.

— Agora você começou a perceber.

A chuva diminuía.

Alguns raios de sol insistiam em atravessar as nuvens.

A janela já não parecia tão opaca.

— Posso fazer uma pergunta?

— Claro.

— Existe um momento em que a gente passa a perceber tudo?

O outro balançou a cabeça negativamente.

— Não.

A percepção não é um lugar onde se chega.

É uma forma de caminhar.

Todos os dias existe alguma coisa que ainda não vimos.

Alguma verdade que ainda não tivemos coragem de olhar.

Alguma janela que continua fechada.

Os dois permaneceram em silêncio.

Já não havia mais nada importante para dizer.

Algumas conversas terminam assim.

Sem conclusão.

Sem aplauso.

Sem frase de efeito.

Porque existem momentos em que a melhor resposta não é uma resposta.

É apenas um novo olhar.

Ronaldo Arouca
Mente Madura

Linhares ES 03 de Agosto de 2026.


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