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Crônicas do Mente Madura - O dia em que Helena decidiu que o marido deveria ir embora.

  Helena não acordou naquela manhã pensando em se separar. Essa é a parte que quase ninguém entenderia depois. Quando contou às amigas o que havia acontecido, todas perguntaram: — Mas você já não estava pensando nisso há algum tempo? Não. Pelo menos não daquela maneira. Helena estava cansada. Isso, sim. Cansada de fazer contas. Cansada de abrir o aplicativo do banco antes de abrir as mensagens. Cansada de olhar para as despesas e perceber que o mês ainda estava longe de terminar. Cansada de trabalhar mais e continuar sentindo que o dinheiro nunca chegava. Cansada das parcelas. Dos compromissos. Das cobranças. Da sensação de que qualquer imprevisto poderia desmontar tudo. E havia outra coisa que ninguém via. Quando a pressão aumentava, o corpo de Helena mudava. O peito apertava. O estômago embrulhava. Os músculos ficavam rígidos. Ela perdia o sono. Às vezes, acordava no meio da madrugada com a sensação de que alguma coisa terrível estava...

Crônicas do Mente Madura — A dor nunca deixa de ensinar.

 


A casa estava silenciosa.

Não era um silêncio ruim. Era aquele silêncio de quem já vive junto há tanto tempo que aprendeu a não preencher todos os espaços com palavras.

Ela fechou o livro que fingia estar lendo.

Ele desligou a televisão sem realmente ter assistido a nada.

Ficaram alguns segundos olhando para a varanda.

Foi ela quem quebrou o silêncio.

— Você já reparou que a gente mudou?

Ele sorriu de lado.

— Faz tempo.

— Não... Não estou falando do cabelo branco.

— Então do quê?

Ela demorou um pouco para responder.

— Da leveza.

Ele virou o rosto.

Sabia exatamente do que ela estava falando.

Durante muitos anos eles riram de qualquer coisa.

Saíam para caminhar sem destino.

Tomavam café na varanda.

Ficavam horas imaginando viagens que talvez nunca fariam.

A vida não era mais fácil.

Mas parecia mais leve.

Ela continuou.

— Você lembra quando a gente conseguia conversar sem pressa?

— Lembro.

— Quando foi que isso acabou?

Ele respirou fundo.

— Acho que não acabou de uma vez.

Foi acontecendo.

Ela concordou com a cabeça.

Era verdade.

Nenhuma tragédia tinha acontecido.

Nenhum grande desastre.

Só a vida.

Conta para pagar.

Filhos.

Trabalho.

Problemas.

Responsabilidades.

Preocupações.

Uma notícia ruim aqui.

Outra ali.

Uma perda.

Uma decepção.

Uma expectativa que nunca se cumpriu.

Tudo muito pequeno.

Mas todos os dias.

Ela olhou para as próprias mãos.

— É estranho...

— O quê?

— Eu nunca percebi que estava ficando pesada.

Ele sorriu.

— Acho que ninguém percebe.

Ela ficou alguns segundos em silêncio.

Depois perguntou:

— Você acha que as pessoas aprendem a sofrer?

Ele demorou para responder.

— Acho que aprendem.

— E desaprendem?

Ele olhou para ela.

— Nunca pensei nisso.

Ela levantou.

Foi até a cozinha.

Voltou com duas xícaras de café.

Entregou uma para ele.

Sentou novamente.

— Sabe do que eu tenho medo?

— Do quê?

— De achar que isso virou quem eu sou.

Ele abaixou os olhos.

Aquela frase atravessou alguma coisa dentro dele.

Porque, se fosse sincero, também sentia isso.

Havia tanto tempo que carregava preocupações, culpas e medos que já não conseguia separar onde terminavam os problemas e onde começava ele mesmo.

Ela continuou.

— Talvez a pior coisa da dor...

não seja a dor.

— Como assim?

— Acho que ela vai convencendo a gente de que sempre fomos assim.

Ele permaneceu em silêncio.

Ela tinha razão.

O sofrimento é um excelente contador de histórias.

Ele reescreve o passado.

Confunde a memória.

Apaga a esperança.

Faz parecer que nunca existiu alegria.

Que nunca existiu paz.

Que nunca existiu leveza.

Depois de alguns minutos, ele perguntou:

— Você lembra daquela viagem para a praia?

Ela sorriu imediatamente.

— Aquela em que o carro quebrou?

— Essa mesma.

Ela começou a rir.

— Nós ficamos três horas esperando um guincho.

— E mesmo assim foi uma das melhores viagens da nossa vida.

Ela enxugou uma lágrima de tanto rir.

— É verdade.

Os dois ficaram em silêncio outra vez.

Mas agora o silêncio era diferente.

Ele perguntou:

— O que mudou?

Ela respondeu sem pensar.

— Nós.

Ele balançou a cabeça negativamente.

— Não sei.

Ela insistiu.

— Claro que sim.

Ele olhou para o jardim.

Depois falou devagar.

— Acho que não.

Ela franziu a testa.

— Como assim?

— Acho que a gente continua sendo quem sempre foi.

Só foi colocando peso demais na mochila.

Ela ficou imóvel.

Não respondeu.

Porque aquela imagem fazia sentido.

Muito sentido.

Ele continuou.

— Ninguém nasce pesado.

A gente vai colocando coisas dentro da mochila.

Uma culpa.

Um medo.

Uma perda.

Uma vergonha.

Uma raiva.

Uma decepção.

Outra.

Mais outra.

Chega uma hora...

que esquecemos como era caminhar sem tudo isso.

Ela deixou escapar uma lágrima.

Não de tristeza.

De reconhecimento.

Era como se alguém tivesse finalmente colocado em palavras algo que ela sentia havia muitos anos.

Depois de alguns minutos, perguntou baixinho:

— E se a mochila nunca esvaziar?

Ele sorriu.

— Acho que essa é a pergunta errada.

— Qual seria a certa?

Ele respondeu olhando nos olhos dela.

— Quem colocou tudo isso aí dentro?

Ela permaneceu em silêncio.

Porque percebeu que nunca tinha pensado dessa forma.

Sempre tentara ficar mais forte.

Mais resistente.

Mais paciente.

Nunca tinha perguntado se precisava continuar carregando tudo aquilo.

Ele tomou o último gole de café.

Depois disse:

— Sabe...

acho que existe uma diferença enorme entre amadurecer...

e endurecer.

Ela repetiu baixinho.

— Amadurecer...

e endurecer...

Ele continuou.

— A fruta madura fica doce.

A madeira endurecida quebra.

Talvez muita gente esteja confundindo uma coisa com a outra.

Ela sorriu.

— Nunca pensei nisso.

Ele respondeu:

— Nem eu.

Os dois olharam novamente para a varanda.

O vento balançava as folhas das árvores.

Um passarinho pousou na cerca.

Ela perguntou:

— Você acha que ainda dá tempo?

Ele sorriu daquele jeito que só quem conhece alguém há muitos anos consegue sorrir.

Sem pressa.

Sem espetáculo.

Sem promessas grandiosas.

— Acho que a pergunta também está errada.

Ela riu.

— Então qual é a certa agora?

Ele segurou a mão dela.

— A pergunta não é se ainda dá tempo.

É se a gente está disposto a parar de carregar o que nunca precisou carregar.

Ela apertou a mão dele.

Pela primeira vez em muito tempo...

os dois perceberam que a paz talvez nunca tivesse ido embora.

Ela apenas estava escondida debaixo de um peso que aprenderam a chamar de vida.

E talvez seja justamente esse o maior engano.

Nem toda dor veio para ficar.

Algumas vieram apenas para ensinar.

O problema começa quando a lição termina...

e a dor continua morando dentro da gente.

Talvez viver não seja aprender a suportar cada vez mais peso.

Talvez viver seja reaprender, pouco a pouco, a caminhar com as mãos livres, o coração leve e a coragem de deixar pelo caminho tudo aquilo que já cumpriu o seu papel.

Toda dor tem uma lição.

Quando a lição é aprendida, a vida muda de fase.

 

Ronaldo Arouca
Mente Madura

Linhares ES 04 de Agosto de 2026.

 


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