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Crônicas do Mente Madura - O dia em que Helena decidiu que o marido deveria ir embora.

  Helena não acordou naquela manhã pensando em se separar. Essa é a parte que quase ninguém entenderia depois. Quando contou às amigas o que havia acontecido, todas perguntaram: — Mas você já não estava pensando nisso há algum tempo? Não. Pelo menos não daquela maneira. Helena estava cansada. Isso, sim. Cansada de fazer contas. Cansada de abrir o aplicativo do banco antes de abrir as mensagens. Cansada de olhar para as despesas e perceber que o mês ainda estava longe de terminar. Cansada de trabalhar mais e continuar sentindo que o dinheiro nunca chegava. Cansada das parcelas. Dos compromissos. Das cobranças. Da sensação de que qualquer imprevisto poderia desmontar tudo. E havia outra coisa que ninguém via. Quando a pressão aumentava, o corpo de Helena mudava. O peito apertava. O estômago embrulhava. Os músculos ficavam rígidos. Ela perdia o sono. Às vezes, acordava no meio da madrugada com a sensação de que alguma coisa terrível estava...

Crônicas do Mente Madura - A cadeira vazia.

 



Quando Laura disse que queria se separar, ninguém ficou surpreso.

Nem mesmo ela.

Havia meses que vinha repetindo a mesma frase:

— Eu acho que preciso cuidar de mim.

As amigas concordavam.

— Você merece ser feliz.

A irmã dizia:

— Você já fez tudo o que podia.

E Laura gostava de ouvir aquilo.

Porque tornava sua decisão mais fácil.

O casamento tinha vinte e dois anos. Os filhos já eram adultos. A casa estava paga. O marido, Roberto, não era um homem violento, não bebia, trabalhava, participava das coisas da família.

Mas havia anos que os dois praticamente não conversavam.

Viviam bem.

Era isso que mais incomodava.

Viviam bem demais para que ela pudesse apontar uma tragédia e dizer:

“Foi por isso que eu fui embora.”

Não havia uma grande traição.

Não havia uma briga definitiva.

Não havia um acontecimento que justificasse uma ruptura.

Havia apenas uma vida que tinha ficado pequena.

E Laura estava cansada de morar dentro dela.

Quando finalmente falou com Roberto, ele demorou alguns segundos para responder.

— Você tem certeza?

— Tenho.

— Tem alguém?

— Não.

— Então o que aconteceu?

Laura ficou em silêncio.

Era uma pergunta simples.

E ela percebeu que não tinha uma resposta simples.

— Eu não sei mais quem eu sou aqui dentro.

Roberto baixou a cabeça.

Não discutiu.

Talvez esperasse que ela mudasse de ideia.

Ela não mudou.

Nos meses seguintes, Laura reorganizou a própria vida.

Mudou-se para um apartamento menor.

Começou a sair mais.

Voltou a encontrar amigas.

Fez uma viagem.

Comprou roupas novas.

Postava fotografias sorrindo.

E, quando alguém perguntava como estava, respondia:

— Estou ótima.

E estava.

Às vezes.

Havia dias em que acordava sentindo uma liberdade que não experimentava havia muito tempo.

Ninguém perguntava que horas ela voltaria.

Ninguém deixava uma toalha molhada sobre a cama.

Ninguém esperava que ela lembrasse de comprar alguma coisa no mercado.

Ninguém ocupava espaço demais.

A vida parecia finalmente pertencer a ela.

Até que, numa quarta-feira à noite, Laura voltou para casa depois de jantar com duas amigas.

Abriu a porta.

Acendeu a luz.

Colocou a bolsa sobre a mesa.

E ficou parada.

O apartamento estava completamente silencioso.

Ela olhou para a sala.

Para a televisão desligada.

Para a cozinha impecavelmente arrumada.

Para a mesa onde havia apenas um prato.

Então percebeu uma coisa que não contou a ninguém.

Sentiu falta do barulho.

Não necessariamente de Roberto.

Do barulho.

Da presença.

Da vida acontecendo ao lado dela.

Sentou-se no sofá.

Pegou o celular.

Abriu a conversa com o ex-marido.

Escreveu:

“Você está bem?”

Apagou.

Escreveu novamente:

“Às vezes sinto falta de casa.”

Apagou.

Desligou o celular.

Naquela noite, dormiu mal.

No dia seguinte, procurou uma terapeuta.

Não para voltar para o casamento.

Nem para desistir da separação.

Queria apenas entender por que uma decisão que parecia tão certa começava a produzir uma sensação tão difícil de explicar.

Depois de ouvi-la por algum tempo, a terapeuta perguntou:

— Laura, quando você decidiu sair do casamento, o que você imaginava que encontraria do outro lado?

Ela pensou.

— Liberdade.

— E encontrou?

Laura demorou.

— Encontrei.

— E por que está sofrendo?

Laura olhou para o chão.

— Porque acho que eu estava mais cansada do que infeliz.

A frase ficou entre as duas.

Era a primeira vez que Laura dizia aquilo em voz alta.

Talvez tivesse confundido o cansaço de uma vida longa com a necessidade de abandoná-la.

Talvez realmente precisasse sair.

Talvez não.

A questão já não era essa.

A questão era outra.

Ela havia tomado uma decisão para construir uma vida nova ou apenas para escapar da vida que já não suportava?

Essa pergunta a acompanhou durante semanas.

Porque existem decisões que nascem de um desejo.

E existem decisões que nascem do alívio que sentimos quando finalmente encontramos uma porta de saída.

As duas podem parecer iguais.

Mas não são.

Uma pessoa pode deixar um emprego porque descobriu outro caminho.

Ou porque não suporta mais acordar na segunda-feira.

Pode terminar um relacionamento porque percebeu que aquela história chegou ao fim.

Ou porque a intimidade começou a exigir dela uma coragem que ainda não possui.

Pode mudar de cidade porque deseja uma vida diferente.

Ou porque acredita que, longe dali, finalmente conseguirá fugir de si mesma.

E há uma diferença difícil de perceber:

quando estamos escolhendo para onde queremos ir, olhamos para frente.

Quando estamos fugindo, olhamos apenas para aquilo de que queremos escapar.

Laura ainda não sabia o que faria com a própria vida.

Mas havia aprendido alguma coisa importante.

Não precisava transformar sua separação em um erro para reconhecer que talvez tivesse tomado aquela decisão pelo motivo errado.

Também não precisava voltar para Roberto apenas porque sentiu falta dele.

Pela primeira vez, podia fazer algo que nunca havia feito:

ficar alguns minutos no meio da dúvida sem correr para uma decisão.

Talvez fosse isso que estivesse faltando.

Não uma nova escolha.

Mas segurança suficiente para permanecer diante de si mesma até descobrir o que realmente queria.

Porque algumas fugas parecem escolhas.

E, às vezes, tudo o que existe por trás delas é alguém tentando, desesperadamente, sentir-se seguro.

Ronaldo Arouca
Mente Madura

Regência Augusta ES

24 de Agosto de 2026.

Ronaldo Arouca — Mente Madura

 


Comentários

  1. A nossa felicidade está dentro de nós.Não é mudando que vamos ser mais ou menos felizes em algumas situações.

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