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Crônicas do Mente Madura - O dia em que Helena decidiu que o marido deveria ir embora.

  Helena não acordou naquela manhã pensando em se separar. Essa é a parte que quase ninguém entenderia depois. Quando contou às amigas o que havia acontecido, todas perguntaram: — Mas você já não estava pensando nisso há algum tempo? Não. Pelo menos não daquela maneira. Helena estava cansada. Isso, sim. Cansada de fazer contas. Cansada de abrir o aplicativo do banco antes de abrir as mensagens. Cansada de olhar para as despesas e perceber que o mês ainda estava longe de terminar. Cansada de trabalhar mais e continuar sentindo que o dinheiro nunca chegava. Cansada das parcelas. Dos compromissos. Das cobranças. Da sensação de que qualquer imprevisto poderia desmontar tudo. E havia outra coisa que ninguém via. Quando a pressão aumentava, o corpo de Helena mudava. O peito apertava. O estômago embrulhava. Os músculos ficavam rígidos. Ela perdia o sono. Às vezes, acordava no meio da madrugada com a sensação de que alguma coisa terrível estava...

Crônicas do Mente Madura - As grades que ninguém vê.

 



— Vovô...

— Hum?

— Você está feliz?

O velho tirou os olhos do jornal.

Olhou para a menina.

Sorriu.

— Que pergunta é essa?

Ela deu de ombros.

— Só queria saber.

Ele demorou um pouco.

— Acho que sim.

Ela franziu a testa.

— "Acho"?

Ele riu.

— Você faz perguntas difíceis.

Ela cruzou as pernas na cadeira da varanda.

— A professora disse que quando a gente não sabe responder uma pergunta...

talvez precise pensar mais nela.

Ele abaixou lentamente o jornal.

Ficou olhando o jardim.

As flores balançavam devagar com o vento.

— Sabe...

faz muito tempo que ninguém me pergunta isso.

Ela sorriu.

— Então responde.

Ele respirou fundo.

— Acho que passei muitos anos ocupado demais para perceber.

Ela não entendeu.

— Ocupado com o quê?

Ele começou a contar nos dedos.

— Trabalhar.

Pagar contas.

Construir uma casa.

Criar filhos.

Resolver problemas.

Ela esperou.

— E depois?

Ele ficou em silêncio.

— Depois...

continuei fazendo a mesma coisa.

Ela inclinou a cabeça.

— Mas por quê?

Ele respondeu sem pensar.

— Porque era o que todo mundo fazia.

Ela olhou para ele como quem tenta entender uma língua diferente.

— Só por isso?

Ele sorriu.

Nunca tinha percebido como aquela resposta era estranha.

— Acho que sim.

Ela ficou alguns segundos olhando um passarinho que bicava migalhas no quintal.

Depois perguntou:

— Você escolheu essa vida?

A pergunta acertou em cheio.

Ele abriu a boca para responder.

Não conseguiu.

Tentou outra vez.

Também não.

Porque percebeu que fazia décadas que ninguém lhe perguntava aquilo.

E pior...

ele nunca havia perguntado isso para si mesmo.

A menina levantou.

Foi até o portão.

Voltou.

— Vovô...

quando eu crescer...

eu posso escolher?

Ele respondeu imediatamente.

— Claro que pode.

Ela sorriu.

— Então por que você não escolheu?

O velho sentiu um nó na garganta.

Não era culpa.

Era lucidez.

Pela primeira vez percebeu que grande parte da sua vida tinha sido construída no piloto automático.

Não porque alguém o obrigou.

Mas porque nunca parou para perguntar se existia outro caminho.

Depois de alguns minutos, falou baixinho.

— Acho que fui colocando um dia em cima do outro.

Ela olhou curiosa.

— Igual montar blocos?

— Isso.

Um dia.

Depois outro.

Depois outro.

Até formar uma parede.

Ela ficou pensando.

Depois respondeu:

— Mas parede também prende.

Ele sorriu.

— Prende mesmo.

Ela caminhou até ele.

Sentou no braço da cadeira.

— E agora?

Ele olhou para a neta.

Depois olhou para o céu.

O fim da tarde pintava tudo de dourado.

— Agora acho que ainda dá para abrir uma janela.

Ela sorriu.

— Janela não.

Porta.

Ele riu alto.

Talvez pela primeira vez naquele dia.

Ou talvez naquele mês.

Ela segurou a mão dele.

— Vovô...

eu acho que as pessoas grandes esquecem de brincar.

Ele respondeu.

— Acho que esquecem de perceber.

Ela franziu a testa.

— Perceber o quê?

Ele olhou novamente para o jardim.

Dessa vez como se estivesse vendo tudo pela primeira vez.

O vento.

As flores.

O cheiro do café vindo da cozinha.

O riso da neta.

O cachorro dormindo ao sol.

Tudo sempre esteve ali.

Quem tinha ido embora era ele.

Ela puxou sua manga.

— Você está chorando?

Ele sorriu.

— Não.

Só estou voltando.

Ela não entendeu.

Nem precisava.

Apenas abraçou o avô.

Alguns minutos depois, ela saiu correndo atrás de uma borboleta.

Ele ficou sozinho na varanda.

Mas já não era a mesma solidão.

Pensou em quantas pessoas passam anos tentando fugir de uma prisão...

sem perceber que a porta nunca esteve trancada.

Talvez a verdadeira prisão não seja feita de grades.

Talvez seja feita de hábitos.

De medos.

De respostas prontas.

De dias iguais.

De escolhas que deixaram de ser escolhas.

Enquanto observava a neta correr pelo quintal, ele compreendeu algo que nunca tinha conseguido colocar em palavras.

A liberdade não começa quando tudo muda.

Ela começa no instante em que você volta a perceber.

Porque ninguém deixa de viver de uma vez.

A gente vai adormecendo aos poucos.

Um dia de cada vez.

Até acreditar que sobreviver é o único jeito possível de existir.

Mas basta um instante de lucidez...

uma pergunta verdadeira...

um olhar diferente...

para lembrar que viver nunca foi apenas atravessar os dias.

Viver é estar presente dentro deles.

E talvez seja exatamente por isso que as crianças enxergam tanto.

Elas ainda não aprenderam a passar pela vida sem percebê-la.

 

Ronaldo Arouca
Mente Madura

Linhares ES 05 de Agosto de 2026.

 


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