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Crônicas do Mente Madura - As grades que ninguém vê.
— Vovô...
— Hum?
— Você está feliz?
O velho tirou os olhos do jornal.
Olhou para a menina.
Sorriu.
— Que pergunta é essa?
Ela deu de ombros.
— Só queria saber.
Ele demorou um pouco.
— Acho que sim.
Ela franziu a testa.
— "Acho"?
Ele riu.
— Você faz perguntas difíceis.
Ela cruzou as pernas na cadeira da varanda.
— A professora disse que quando a gente não sabe
responder uma pergunta...
talvez precise pensar mais nela.
Ele abaixou lentamente o jornal.
Ficou olhando o jardim.
As flores balançavam devagar com o vento.
— Sabe...
faz muito tempo que ninguém me pergunta isso.
Ela sorriu.
— Então responde.
Ele respirou fundo.
— Acho que passei muitos anos ocupado demais para
perceber.
Ela não entendeu.
— Ocupado com o quê?
Ele começou a contar nos dedos.
— Trabalhar.
Pagar contas.
Construir uma casa.
Criar filhos.
Resolver problemas.
Ela esperou.
— E depois?
Ele ficou em silêncio.
— Depois...
continuei fazendo a mesma coisa.
Ela inclinou a cabeça.
— Mas por quê?
Ele respondeu sem pensar.
— Porque era o que todo mundo fazia.
Ela olhou para ele como quem tenta entender uma
língua diferente.
— Só por isso?
Ele sorriu.
Nunca tinha percebido como aquela resposta era
estranha.
— Acho que sim.
Ela ficou alguns segundos olhando um passarinho que
bicava migalhas no quintal.
Depois perguntou:
— Você escolheu essa vida?
A pergunta acertou em cheio.
Ele abriu a boca para responder.
Não conseguiu.
Tentou outra vez.
Também não.
Porque percebeu que fazia décadas que ninguém lhe
perguntava aquilo.
E pior...
ele nunca havia perguntado isso para si mesmo.
A menina levantou.
Foi até o portão.
Voltou.
— Vovô...
quando eu crescer...
eu posso escolher?
Ele respondeu imediatamente.
— Claro que pode.
Ela sorriu.
— Então por que você não escolheu?
O velho sentiu um nó na garganta.
Não era culpa.
Era lucidez.
Pela primeira vez percebeu que grande parte da sua
vida tinha sido construída no piloto automático.
Não porque alguém o obrigou.
Mas porque nunca parou para perguntar se existia
outro caminho.
Depois de alguns minutos, falou baixinho.
— Acho que fui colocando um dia em cima do outro.
Ela olhou curiosa.
— Igual montar blocos?
— Isso.
Um dia.
Depois outro.
Depois outro.
Até formar uma parede.
Ela ficou pensando.
Depois respondeu:
— Mas parede também prende.
Ele sorriu.
— Prende mesmo.
Ela caminhou até ele.
Sentou no braço da cadeira.
— E agora?
Ele olhou para a neta.
Depois olhou para o céu.
O fim da tarde pintava tudo de dourado.
— Agora acho que ainda dá para abrir uma janela.
Ela sorriu.
— Janela não.
Porta.
Ele riu alto.
Talvez pela primeira vez naquele dia.
Ou talvez naquele mês.
Ela segurou a mão dele.
— Vovô...
eu acho que as pessoas grandes esquecem de brincar.
Ele respondeu.
— Acho que esquecem de perceber.
Ela franziu a testa.
— Perceber o quê?
Ele olhou novamente para o jardim.
Dessa vez como se estivesse vendo tudo pela primeira
vez.
O vento.
As flores.
O cheiro do café vindo da cozinha.
O riso da neta.
O cachorro dormindo ao sol.
Tudo sempre esteve ali.
Quem tinha ido embora era ele.
Ela puxou sua manga.
— Você está chorando?
Ele sorriu.
— Não.
Só estou voltando.
Ela não entendeu.
Nem precisava.
Apenas abraçou o avô.
Alguns minutos depois, ela saiu correndo atrás de
uma borboleta.
Ele ficou sozinho na varanda.
Mas já não era a mesma solidão.
Pensou em quantas pessoas passam anos tentando fugir
de uma prisão...
sem perceber que a porta nunca esteve trancada.
Talvez a verdadeira prisão não seja feita de grades.
Talvez seja feita de hábitos.
De medos.
De respostas prontas.
De dias iguais.
De escolhas que deixaram de ser escolhas.
Enquanto observava a neta correr pelo quintal, ele
compreendeu algo que nunca tinha conseguido colocar em palavras.
A liberdade não começa quando tudo muda.
Ela começa no instante em que você volta a perceber.
Porque ninguém deixa de viver de uma vez.
A gente vai adormecendo aos poucos.
Um dia de cada vez.
Até acreditar que sobreviver é o único jeito
possível de existir.
Mas basta um instante de lucidez...
uma pergunta verdadeira...
um olhar diferente...
para lembrar que viver nunca foi apenas atravessar
os dias.
Viver é estar presente dentro deles.
E talvez seja exatamente por isso que as crianças
enxergam tanto.
Elas ainda não aprenderam a passar pela vida sem
percebê-la.
Ronaldo
Arouca
Mente Madura
Linhares ES 05 de Agosto de 2026.
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