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Crônicas do Mente Madura - O dia em que Helena decidiu que o marido deveria ir embora.

  Helena não acordou naquela manhã pensando em se separar. Essa é a parte que quase ninguém entenderia depois. Quando contou às amigas o que havia acontecido, todas perguntaram: — Mas você já não estava pensando nisso há algum tempo? Não. Pelo menos não daquela maneira. Helena estava cansada. Isso, sim. Cansada de fazer contas. Cansada de abrir o aplicativo do banco antes de abrir as mensagens. Cansada de olhar para as despesas e perceber que o mês ainda estava longe de terminar. Cansada de trabalhar mais e continuar sentindo que o dinheiro nunca chegava. Cansada das parcelas. Dos compromissos. Das cobranças. Da sensação de que qualquer imprevisto poderia desmontar tudo. E havia outra coisa que ninguém via. Quando a pressão aumentava, o corpo de Helena mudava. O peito apertava. O estômago embrulhava. Os músculos ficavam rígidos. Ela perdia o sono. Às vezes, acordava no meio da madrugada com a sensação de que alguma coisa terrível estava...

Nem todo cansaço precisa de sono.

 




Há dias em que dormimos a noite inteira e, ainda assim, acordamos cansados.

O corpo descansou.

Mas alguma coisa dentro de nós continua pedindo descanso.

É um cansaço difícil de explicar. Não aparece nos exames, não pode ser medido por relógios e não desaparece com algumas horas de sono.

Ele vai se formando aos poucos.

Cada preocupação prolongada deixa um pequeno peso.

Cada expectativa frustrada consome um pouco da nossa energia.

Cada tentativa de controlar o que foge às nossas mãos cobra um preço silencioso.

Quando percebemos, o corpo desacelera, mas a mente continua correndo.

Paramos de trabalhar.

Desligamos o computador.

Sentamos no sofá.

Mesmo assim, por dentro, seguimos respondendo discussões antigas, antecipando problemas que ainda não chegaram e carregando situações que o presente nem sequer está nos pedindo para enfrentar.

Descansar o corpo e aquietar a consciência não são a mesma coisa.

O corpo precisa de tempo.

A consciência precisa de presença.

Presença para perceber que nem tudo exige uma resposta imediata.

Presença para reconhecer que muitas inquietações pertencem apenas ao campo da imaginação.

Presença para aceitar que algumas questões continuarão abertas por mais algum tempo — e que ainda assim é possível viver com serenidade.

A paz não espera que a vida se organize completamente.

Ela começa quando deixamos de entregar toda a nossa energia às inquietações que não produzem transformação.

Isso não significa abandonar responsabilidades.

Significa deixar de alimentar batalhas que apenas prolongam o desgaste.

A mente possui uma habilidade curiosa.

Ela amplia aquilo que recebe atenção.

Uma preocupação repetida ganha força.

Um medo revisitado cresce.

Um pensamento alimentado diariamente acaba ocupando espaços que nunca lhe pertenciam.

Por isso, descansar também é escolher onde colocar a própria atenção.

Silenciar, por alguns instantes, não é fugir da realidade.

É recuperar a clareza necessária para voltar a ela com mais lucidez.

O domingo nos oferece essa oportunidade.

Não apenas de interromper o trabalho.

Mas de interromper a pressa.

Respirar sem culpa.

Olhar para dentro sem cobranças.

Permitir que a consciência reencontre um pouco de quietude antes que uma nova semana comece.

Uma mente descansada enxerga melhor.

Um coração tranquilo escolhe melhor.

E uma vida vivida com serenidade encontra forças que o corpo, sozinho, jamais conseguiria produzir.

Que este domingo não seja apenas uma pausa no calendário.

Que ele seja um reencontro com aquilo que há de mais silencioso, mais verdadeiro e mais vivo dentro de você.

O sono renova o corpo.

A paz renova a maneira de viver.


Ronaldo Arouca
Mente Madura

Linhares ES 19 de Julho de 2026.

 


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