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Crônicas do Mente Madura - O dia em que Helena decidiu que o marido deveria ir embora.

  Helena não acordou naquela manhã pensando em se separar. Essa é a parte que quase ninguém entenderia depois. Quando contou às amigas o que havia acontecido, todas perguntaram: — Mas você já não estava pensando nisso há algum tempo? Não. Pelo menos não daquela maneira. Helena estava cansada. Isso, sim. Cansada de fazer contas. Cansada de abrir o aplicativo do banco antes de abrir as mensagens. Cansada de olhar para as despesas e perceber que o mês ainda estava longe de terminar. Cansada de trabalhar mais e continuar sentindo que o dinheiro nunca chegava. Cansada das parcelas. Dos compromissos. Das cobranças. Da sensação de que qualquer imprevisto poderia desmontar tudo. E havia outra coisa que ninguém via. Quando a pressão aumentava, o corpo de Helena mudava. O peito apertava. O estômago embrulhava. Os músculos ficavam rígidos. Ela perdia o sono. Às vezes, acordava no meio da madrugada com a sensação de que alguma coisa terrível estava...

Crônicas do Mente Madura — Quando a vida faz uma pergunta inesperada.

 




Há perguntas que chegam sem fazer barulho.

Elas não avisam que estão chegando. Não marcam hora. Não pedem licença.

Apenas aparecem.

Em geral, acontece num dia comum. O despertador toca, o café é preparado, as mensagens começam a chegar, o trabalho espera, os compromissos ocupam a agenda. Por fora, tudo continua exatamente como sempre foi.

Por dentro, porém, alguma coisa mudou.

É nesse instante que surge uma pergunta tão simples quanto desconcertante:

"É só isso?"

Muita gente se assusta quando essa pergunta aparece.

Outras pessoas fazem de tudo para não escutá-la. Aumentam o ritmo de trabalho, ocupam cada minuto do dia, ligam a televisão, pegam o celular, procuram qualquer distração que silencie aquela inquietação.

Mas algumas perguntas não desaparecem porque foram ignoradas.

Elas apenas esperam o momento certo para voltar.

Sabe aquela bússola antiga que os navegadores usavam para atravessar oceanos?

Ela podia enfrentar tempestades, ventos fortes e ondas gigantes. Mesmo assim, nunca deixava de apontar para o norte.

A nossa consciência funciona de maneira parecida.

Podemos passar anos seguindo um caminho que agrada aos outros, atende expectativas ou simplesmente paga as contas. Ainda assim, chega um momento em que alguma coisa dentro de nós insiste em mostrar que perdemos o rumo.

A bússola não está quebrada.

Ela apenas continua apontando para a direção que deixamos de seguir.

É justamente aí que muitas pessoas dão um nome assustador para esse momento: crise existencial.

Confesso que nunca gostei muito dessa expressão.

Ela parece anunciar uma tragédia.

Na prática, quase sempre acontece o contrário.

A crise não nasce para destruir a vida.

Ela nasce quando a vida pede uma conversa que foi adiada por tempo demais.

Lembro-me de uma frase de Friedrich Nietzsche que sempre me faz refletir:

"Quem tem um porquê enfrenta quase qualquer como."

Durante muito tempo, essa frase foi entendida como um convite à força.

Hoje, enxergo outra camada.

Antes de encontrar um "porquê", é preciso perceber que ele se perdeu.

E essa percepção costuma doer.

Ninguém procura um novo caminho enquanto acredita estar na estrada certa.

É por isso que a crise, por mais desconfortável que seja, pode se transformar em um presente disfarçado.

Ela interrompe o piloto automático.

Ela faz perguntas que estavam esquecidas.

Ela obriga a diminuir a velocidade.

Imagine um motorista viajando por horas em uma rodovia.

A estrada é boa.

O carro está funcionando.

O combustível ainda é suficiente.

Tudo parece perfeito.

Então ele percebe uma pequena placa indicando que seguiu na direção oposta durante centenas de quilômetros.

Nesse momento, o problema não é a qualidade da estrada.

O problema é o destino.

Continuar acelerando apenas fará com que ele se afaste ainda mais do lugar onde realmente queria chegar.

A vida também faz isso conosco.

Nem sempre o sofrimento aparece porque tudo está dando errado.

Em muitos casos, ele surge porque tudo está funcionando... na direção errada.

E existe uma diferença enorme entre uma vida confortável e uma vida com sentido.

Conforto acalma o corpo.

Sentido alimenta a alma.

Quando um deles desaparece, o outro dificilmente consegue compensar por muito tempo.

Por isso, se essa inquietação já bateu à sua porta, não tenha tanta pressa para expulsá-la.

Escute o que ela veio dizer.

Nem toda dor é uma inimiga.

Algumas dores se parecem mais com o amigo sincero que tem coragem de dizer aquilo que ninguém mais diria.

Não porque deseja machucar.

Mas porque deseja despertar.

No fim das contas, a crise existencial não faz uma única pergunta.

Ela faz várias.

Quem você se tornou?

O que ainda faz sentido?

O que ficou para trás?

O que merece continuar?

Responder a essas perguntas leva tempo.

E tudo bem.

As melhores decisões da vida raramente nascem da pressa.

Elas nascem da coragem de permanecer alguns minutos em silêncio, olhando para dentro, até que a resposta deixe de ser apenas uma ideia e se transforme em direção.

Se você chegou até aqui carregando esse peso silencioso, guarde uma certeza.

Há momentos em que a vida não está desmoronando.

Ela está apenas convidando você a construir um novo caminho.

E, por mais estranho que pareça no começo, esse convite costuma ser o primeiro passo para reencontrar o sentido que sempre esteve esperando por você.

Ronaldo Arouca
Mente Madura

Linhares ES 22 de Julho de 2026.

 


Comentários

  1. "Cumpramos o que somos, nada mais nos é dado”

    – Ricardo Reis, Odes

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