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Crônicas do Mente Madura - O dia em que Helena decidiu que o marido deveria ir embora.

  Helena não acordou naquela manhã pensando em se separar. Essa é a parte que quase ninguém entenderia depois. Quando contou às amigas o que havia acontecido, todas perguntaram: — Mas você já não estava pensando nisso há algum tempo? Não. Pelo menos não daquela maneira. Helena estava cansada. Isso, sim. Cansada de fazer contas. Cansada de abrir o aplicativo do banco antes de abrir as mensagens. Cansada de olhar para as despesas e perceber que o mês ainda estava longe de terminar. Cansada de trabalhar mais e continuar sentindo que o dinheiro nunca chegava. Cansada das parcelas. Dos compromissos. Das cobranças. Da sensação de que qualquer imprevisto poderia desmontar tudo. E havia outra coisa que ninguém via. Quando a pressão aumentava, o corpo de Helena mudava. O peito apertava. O estômago embrulhava. Os músculos ficavam rígidos. Ela perdia o sono. Às vezes, acordava no meio da madrugada com a sensação de que alguma coisa terrível estava...

Crônicas do Mente Madura - Quando uma emoção finalmente encontra um nome.

 



Há alguns anos, visitei uma cidade antiga onde as ruas eram tão estreitas que duas pessoas mal conseguiam caminhar lado a lado. As casas tinham portas de madeira já gastas pelo tempo, e as janelas pareciam guardar histórias que ninguém mais contava.

Enquanto caminhava, vi um senhor sentado diante da própria casa. Não fazia absolutamente nada. Apenas observava quem passava.

Passei por ele, dei alguns passos e, sem saber exatamente por quê, voltei.

Perguntei:

— O senhor mora aqui há muito tempo?

Ele sorriu daquele jeito que só quem já viu muitas estações sabe sorrir.

— Tempo suficiente para descobrir que as pessoas carregam muito mais coisas dentro de si do que nas malas.

A frase ficou comigo.

Na época, achei bonita.

Hoje, acho verdadeira.

Existe um costume curioso entre nós.

Quando uma criança cai, perguntamos onde machucou.

Quando um adulto sofre, perguntamos o que aconteceu.

Raramente perguntamos:

— O que você está sentindo?

Talvez porque responder essa pergunta seja muito mais difícil.

Desde pequenos aprendemos a reconhecer cores, números, letras e cidades.

Mas quase ninguém nos ensina a reconhecer uma emoção.

Aprendemos a dizer "estou bem", mesmo quando alguma coisa por dentro já começou a desmoronar.

Aprendemos a suportar.

Aprendemos a seguir em frente.

Aprendemos a trabalhar.

Aprendemos a sorrir nas fotografias.

Só não aprendemos a conversar com aquilo que sentimos.

E o curioso é que as emoções nunca deixam de conversar conosco.

Elas apenas mudam a forma de falar.

Às vezes aparecem como uma irritação que parece não ter motivo.

Outras vezes como um cansaço que nenhum descanso resolve.

Em outras, chegam vestidas de ansiedade.

Ou de silêncio.

Ou daquela estranha sensação de que a vida perdeu um pouco da cor.

Não porque a vida tenha mudado.

Mas porque alguma parte de nós deixou de ser escutada.

Imagine uma casa.

Durante anos, um dos quartos permanece fechado.

Ninguém entra.

Ninguém limpa.

Ninguém abre a janela.

Com o tempo, esquecemos até que aquele quarto existe.

Mas ele continua fazendo parte da casa.

Assim também são algumas emoções.

Elas não desaparecem porque foram ignoradas.

Continuam vivendo em algum lugar dentro de nós.

Esperando.

Não para nos machucar.

Mas para serem finalmente reconhecidas.

Há quem passe uma vida inteira tentando expulsar o medo.

Outros fazem guerra contra a tristeza.

Alguns escondem a culpa.

E muitos transformam a própria sensibilidade em motivo de vergonha.

Talvez porque acreditaram que maturidade significava nunca mais sentir.

Mas a maturidade nunca foi ausência de emoção.

A maturidade é a capacidade de permanecer diante dela sem precisar fugir.

É olhar para dentro com a mesma delicadeza com que olhamos para alguém que amamos.

É curioso...

Quando um amigo chega triste, dificilmente dizemos:

"Pare de sentir isso."

Nós o escutamos.

Oferecemos um café.

Ficamos em silêncio.

Esperamos.

Por que, então, fazemos diferente conosco?

Por que tratamos nossas próprias emoções como inimigas?

Talvez porque ainda não percebemos que toda emoção nasce tentando proteger alguma parte da nossa história.

Até o medo.

Até a raiva.

Até a tristeza.

Todas elas chegam trazendo uma mensagem.

Nem sempre agradável.

Mas quase sempre importante.

Penso que seja por isso que dar nome ao que sentimos produz um efeito tão profundo.

Não é uma questão de palavras.

É uma questão de reconhecimento.

Quando finalmente conseguimos dizer:

"Isso não é apenas ansiedade."

"Isso é medo de perder."

Ou:

"Isso não é apenas raiva."

"Isso é uma antiga sensação de injustiça."

Algo muda.

A emoção continua ali.

Mas já não ocupa o mesmo lugar.

Ela deixa de ser um monstro escondido no escuro.

Acende-se uma pequena luz.

E, quase sempre, descobrimos que aquilo que parecia enorme era apenas desconhecido.

Talvez seja isso que chamamos de transformação.

Não o desaparecimento da dor.

Mas o fim do mistério.

Porque aquilo que compreendemos já não precisa gritar para ser percebido.

E aquilo que finalmente encontra um nome deixa de pedir socorro através do sofrimento.

No início desta jornada, fizemos uma pergunta simples:

Você sabe de onde nasce uma emoção?

Hoje, talvez possamos responder de outro jeito.

Uma emoção nasce da vida.

Das histórias.

Das perdas.

Dos encontros.

Das expectativas.

Dos afetos.

Mas ela amadurece quando encontra alguém disposto a escutá-la.

Mesmo que esse alguém seja você.

Talvez seja por isso que algumas pessoas descrevem o autoconhecimento como uma volta para casa.

Não porque encontrem uma versão perfeita de si mesmas.

Mas porque reencontram partes que haviam sido deixadas para trás.

No fim das contas, talvez a transformação nunca tenha sido tornar-se outra pessoa.

Talvez ela sempre tenha sido a delicada coragem de voltar a ser quem você era antes que a vida o convencesse de que precisava esconder o próprio coração.

E, quando isso acontece...

Uma emoção deixa de ser um mistério.

E uma pessoa começa, enfim, a se reconhecer novamente.

Ronaldo Arouca
Mente Madura

Linhares ES 01 de Agosto de 2026.


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