Pular para o conteúdo principal

Destaques

Crônicas do Mente Madura - O dia em que Helena decidiu que o marido deveria ir embora.

  Helena não acordou naquela manhã pensando em se separar. Essa é a parte que quase ninguém entenderia depois. Quando contou às amigas o que havia acontecido, todas perguntaram: — Mas você já não estava pensando nisso há algum tempo? Não. Pelo menos não daquela maneira. Helena estava cansada. Isso, sim. Cansada de fazer contas. Cansada de abrir o aplicativo do banco antes de abrir as mensagens. Cansada de olhar para as despesas e perceber que o mês ainda estava longe de terminar. Cansada de trabalhar mais e continuar sentindo que o dinheiro nunca chegava. Cansada das parcelas. Dos compromissos. Das cobranças. Da sensação de que qualquer imprevisto poderia desmontar tudo. E havia outra coisa que ninguém via. Quando a pressão aumentava, o corpo de Helena mudava. O peito apertava. O estômago embrulhava. Os músculos ficavam rígidos. Ela perdia o sono. Às vezes, acordava no meio da madrugada com a sensação de que alguma coisa terrível estava...

Crônicas do Mente Madura - A língua esquecida do coração.

 



Naquela manhã, a cafeteria ainda estava quase vazia. O cheiro do café recém passado se misturava ao perfume discreto da madeira antiga das mesas. Lá fora, o movimento da cidade começava devagar. Pessoas caminhavam apressadas para compromissos que pareciam importantes demais para permitir qualquer atraso. Aqui dentro, porém, o tempo parecia obedecer a outro relógio.

Na mesa ao lado da janela, um senhor de cabelos completamente brancos segurava a xícara com as duas mãos. Não lia o jornal. Não mexia no celular. Apenas olhava para a rua como quem procurava alguma lembrança escondida entre os carros.

Depois de alguns minutos, uma mulher entrou. Devia ter pouco mais de quarenta anos. Sentou-se duas mesas adiante, pediu um café sem açúcar e, antes mesmo da bebida chegar, respirou profundamente, como quem havia terminado uma corrida invisível.

Curioso como existem cansaços que ninguém vê.

Ela não parecia cansada do corpo.

Parecia cansada da alma.

Enquanto esperava, tirou o celular da bolsa. Abriu uma conversa. Escreveu alguma coisa. Apagou. Escreveu novamente. Tornou a apagar. Guardou o aparelho sem enviar nenhuma palavra.

Quantas conversas morrem antes mesmo de nascer?

Foi então que pensei numa pergunta que raramente fazemos.

Quem nos ensinou a dar nome ao que sentimos?

A escola ensinou matemática.

Ensinou geografia.

Ensinou gramática.

Alguns aprenderam outro idioma, informática, administração, direito, engenharia.

Mas quase ninguém foi alfabetizado na própria vida interior.

Aprendemos cedo a responder quando alguém perguntava nosso nome.

Aprendemos a dizer nossa idade.

Nosso endereço.

Nossa profissão.

Aprendemos até a decorar documentos cheios de números.

Mas ninguém perguntava:

"O que você está sentindo?"

E, quando perguntava, quase sempre esperava uma resposta rápida.

"Estou bem."

Era suficiente.

Talvez por isso tanta gente chegue à vida adulta sabendo administrar empresas, criar filhos, construir patrimônio, resolver problemas complexos... e, ao mesmo tempo, completamente incapaz de reconhecer a própria tristeza.

Não porque seja fraca.

Porque nunca aprendeu essa língua.

Imagine uma criança criada em um país onde todos falam francês.

Anos depois, ela se muda para um lugar onde todos falam japonês.

Durante muito tempo, tudo parecerá confuso.

As palavras estarão ali.

Os sons também.

Mas faltarão significados.

É exatamente isso que acontece com muitas emoções.

Elas existem.

Batem à porta.

Tentam conversar.

Mas nós esquecemos o idioma.

Então fazemos aquilo que aprendemos.

Suportamos.

Suportamos o casamento.

Suportamos o trabalho.

Suportamos o vazio dos domingos.

Suportamos a distância dos filhos.

Suportamos o envelhecimento.

Suportamos a saudade.

E, pouco a pouco, começamos a acreditar que suportar é uma virtude.

Talvez seja.

Durante algum tempo.

Mas existe um momento em que suportar deixa de ser força e passa a ser apenas sobrevivência.

É curioso observar uma árvore depois de uma tempestade.

Alguns galhos quebram imediatamente.

Outros permanecem aparentemente intactos.

Só meses depois começam a secar.

Quem passa pela estrada imagina que a árvore adoeceu de repente.

Mas a rachadura aconteceu muito antes.

Assim também acontece conosco.

Existem dores que parecem nascer hoje.

Na verdade, apenas resolveram aparecer.

O corpo costuma perceber antes da consciência.

A insônia chega.

O estômago reclama.

Os ombros endurecem.

A respiração encurta.

O coração acelera.

Os exames continuam normais.

Mesmo assim, alguma coisa insiste em dizer que há uma conversa sendo adiada há muitos anos.

Talvez seja por isso que o silêncio assuste tanto.

Porque, quando tudo fica quieto, finalmente escutamos aquilo que passamos décadas tentando abafar.

Conheço pessoas que deixam a televisão ligada o dia inteiro.

Outras vivem cercadas de música.

Há quem nunca saia sem fones de ouvido.

Não porque gostem tanto do barulho.

Mas porque o silêncio começou a fazer perguntas difíceis.

E perguntas difíceis exigem coragem.

Existe uma delicadeza curiosa nas manhãs muito cedo.

Antes que a cidade desperte completamente, parece que o mundo respira mais devagar.

Os pássaros não têm pressa.

A luz entra pelas janelas sem pedir licença.

O café ainda respirava sobre a mesa.

Talvez seja um dos poucos momentos do dia em que conseguimos perceber que existe uma vida inteira acontecendo dentro de nós.

Uma vida que não aparece nas fotografias.

Nem nos currículos.

Nem nas redes sociais.

Há um território invisível onde moram nossos medos, nossas perdas, nossos sonhos abandonados e também aquilo que ainda pode florescer.

Só que esse território não aceita gritos.

Ele responde apenas a quem chega devagar.

Talvez seja esse o verdadeiro significado da maturidade.

Não endurecer.

Não fingir que nada dói.

Não colecionar máscaras cada vez mais sofisticadas.

Talvez maturidade seja reaprender a escutar uma língua que um dia foi nossa.

A língua do coração.

Ela nunca desapareceu.

Apenas ficou esquecida debaixo de muitas responsabilidades, muitos boletos, muitas cobranças e muitos "depois eu vejo isso".

Hoje, antes de seguir correndo para o próximo compromisso, faça uma experiência muito simples.

Quando encontrar alguns minutos de silêncio, não pergunte primeiro o que precisa fazer.

Pergunte o que existe aí dentro tentando ser ouvido.

Talvez a resposta não venha imediatamente.

Tudo bem.

Algumas línguas esquecidas precisam de tempo para voltar à memória.

E, quando a primeira palavra finalmente surgir, você poderá descobrir que nunca esteve vazio.

Apenas passou muitos anos sem compreender a própria voz.

Ronaldo Arouca
Mente Madura

Linhares ES 29 de Julho de 2026.

 


Comentários

Postagens mais visitadas