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Crônicas do Mente Madura - O dia em que Helena decidiu que o marido deveria ir embora.

  Helena não acordou naquela manhã pensando em se separar. Essa é a parte que quase ninguém entenderia depois. Quando contou às amigas o que havia acontecido, todas perguntaram: — Mas você já não estava pensando nisso há algum tempo? Não. Pelo menos não daquela maneira. Helena estava cansada. Isso, sim. Cansada de fazer contas. Cansada de abrir o aplicativo do banco antes de abrir as mensagens. Cansada de olhar para as despesas e perceber que o mês ainda estava longe de terminar. Cansada de trabalhar mais e continuar sentindo que o dinheiro nunca chegava. Cansada das parcelas. Dos compromissos. Das cobranças. Da sensação de que qualquer imprevisto poderia desmontar tudo. E havia outra coisa que ninguém via. Quando a pressão aumentava, o corpo de Helena mudava. O peito apertava. O estômago embrulhava. Os músculos ficavam rígidos. Ela perdia o sono. Às vezes, acordava no meio da madrugada com a sensação de que alguma coisa terrível estava...

CRÔNICAS DO MENTE MADURA - De onde nasce uma emoção?

 



Outro dia me fizeram uma pergunta que ficou ecoando na minha cabeça.

— Você já parou para pensar de onde nasce uma emoção?

Confesso que a primeira reação foi responder depressa.

"Nasce daquilo que acontece com a gente."

Mas, enquanto a frase saía da boca, percebi que ela não me convencia.

Porque, se fosse assim, duas pessoas vivendo exatamente a mesma situação sentiriam exatamente a mesma coisa. E sabemos que isso não acontece.

Pense em uma criança que sobe em uma árvore pela primeira vez.

Ela olha para baixo e sente medo.

Ao lado dela, outra criança sente entusiasmo.

A árvore é a mesma.

A altura é a mesma.

O momento é o mesmo.

Então por que a emoção é diferente?

Talvez porque a emoção não nasça do fato.

Talvez ela nasça do encontro entre o fato... e quem nós somos naquele instante.

Isso me fez lembrar de uma conversa que tive há alguns anos.

A pessoa dizia:

— Eu não entendo. Antes eu não ligava para isso. Agora qualquer comentário me machuca.

Achei curioso o jeito como ela falou.

Não era o comentário que tinha mudado.

Quem tinha mudado era ela.

Há fases da vida em que uma crítica passa quase despercebida.

Em outras, a mesma frase parece atravessar a gente como uma flecha.

O que mudou?

Será que foi a frase?

Ou será que foi o lugar onde ela encontrou abrigo dentro de nós?

Quanto mais penso nisso, mais me convenço de que as emoções são muito menos previsíveis do que gostaríamos.

Talvez porque carregamos uma história que ninguém vê.

Quando encontramos alguém na rua, enxergamos apenas aquele momento.

Não enxergamos as noites mal dormidas.

As perdas.

As alegrias.

Os medos antigos.

As expectativas.

As lembranças que ainda insistem em aparecer.

Tudo isso caminha silenciosamente ao nosso lado.

E, de alguma maneira, participa daquilo que sentimos.

Outro dia vi uma cena simples.

Duas pessoas ouviram a mesma música.

Uma sorriu.

A outra ficou com os olhos marejados.

A música não escolheu provocar alegria em uma e saudade na outra.

Ela apenas encontrou histórias diferentes.

Achei bonita essa ideia.

Talvez as emoções façam exatamente isso.

Elas encontram as histórias que carregamos.

Isso também explica por que, às vezes, uma pergunta aparentemente inocente nos desorganiza.

Ou por que um perfume faz alguém voltar vinte anos no tempo.

Ou por que um lugar desperta uma paz difícil de explicar.

Nada disso acontece por acaso.

Mas também não acontece de maneira totalmente consciente.

Existe um mundo inteiro funcionando dentro de nós sem pedir autorização.

E talvez seja justamente isso que torne o ser humano tão fascinante.

Durante muito tempo pensei que maturidade significasse controlar as emoções.

Hoje já não tenho tanta certeza.

Talvez maturidade seja outra coisa.

Talvez seja desenvolver curiosidade sobre elas.

Em vez de dizer:

"Não deveria estar sentindo isso."

Perguntar:

"De onde será que isso veio?"

A diferença parece pequena.

Mas muda completamente a conversa que temos conosco.

Porque a primeira pergunta fecha a porta.

A segunda abre.

E quando uma porta se abre, algo novo sempre pode ser descoberto.

Percebo que existe uma pressa muito grande em explicar tudo.

Queremos definir.

Classificar.

Resolver.

Mas algumas emoções parecem pedir exatamente o contrário.

Pedem tempo.

Silêncio.

Observação.

Como quem se aproxima de um lago para enxergar o fundo.

Se agitarmos demais a água, veremos apenas o reflexo da nossa própria ansiedade.

Talvez seja preciso esperar que ela se acalme.

Só então começamos a perceber o que sempre esteve ali.

No fundo, acho que as emoções se parecem um pouco com cartas.

Elas chegam trazendo uma mensagem.

Nem sempre gostamos do conteúdo.

Às vezes preferimos rasgar o envelope antes mesmo de ler.

Outras vezes fingimos que ele nunca chegou.

Mas a carta continua ali, sobre a mesa.

Esperando.

Não porque queira nos incomodar.

Mas porque talvez tenha alguma coisa importante para dizer.

Quem sabe seja por isso que algumas emoções insistem tanto em voltar.

Não porque sejam teimosas.

Mas porque ainda não foram escutadas.

E talvez a pergunta mais importante não seja:

"Como faço para parar de sentir isso?"

Talvez seja outra.

Muito mais simples.

E muito mais difícil.

O que essa emoção está tentando me mostrar sobre a minha própria história?

Talvez seja aí...

que ela realmente comece.

 

Ronaldo Arouca
Mente Madura

Linhares ES 28 de Julho de 2026.

 

 

 


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