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Crônicas do Mente Madura — Decidir muda pouco. Começar muda tudo.
Hoje passei boa parte do dia pensando em Nietzsche.
Não nele, propriamente.
Numa imagem que ele criou.
A do camelo, do leão e da criança.
Engraçado como algumas ideias fazem isso com a
gente. Entram sem pedir licença, sentam-se ao nosso lado e passam o dia inteiro
nos acompanhando. Você está tomando café e elas estão ali. Está dirigindo e
elas continuam ali. Vai dormir e elas ainda insistem em permanecer.
Foi exatamente assim hoje.
Enquanto preparava os textos do Mente Madura, aquela
imagem não saía da minha cabeça.
O camelo.
O leão.
A criança.
Talvez eu esteja forçando a metáfora.
Talvez Nietzsche nem concordasse com o caminho que
minha cabeça resolveu seguir.
Mas fiquei pensando nisso o dia inteiro.
O camelo é aquele que aprende a suportar peso.
Ele carrega responsabilidades, deveres,
expectativas, culpas, promessas. Vai acumulando tudo sobre as costas e, de
tanto carregar, acredita que viver é isso: suportar.
Conheço muita gente assim.
Aliás...
Acho que todos nós já fomos esse camelo em algum
momento da vida.
Trabalhamos onde já não fazia sentido permanecer.
Mantivemos relações que haviam perdido a capacidade
de florescer.
Adiamos sonhos porque "agora não era a
hora".
Aceitamos mais peso do que podíamos suportar apenas
porque nos ensinaram que pessoas fortes não reclamam.
O curioso é que o camelo quase nunca decide
permanecer.
Ele simplesmente continua.
Existe uma diferença enorme entre decidir e
continuar.
Continuar é automático.
Decidir exige consciência.
E foi aí que comecei a desconfiar de que talvez o
nosso Bilhete de hoje escondesse uma armadilha.
"Decidir muda pouco. Começar muda
tudo."
À primeira vista parece apenas uma frase de efeito.
Mas, pensando melhor, talvez ela seja quase um mapa.
Porque decidir não significa abandonar o deserto.
Significa apenas perceber que existe um deserto.
O verdadeiro movimento acontece depois.
É quando aparece o leão.
Nietzsche dizia que o leão precisava aprender a
dizer "não".
Sempre achei curioso isso.
Passamos a infância aprendendo a obedecer.
Passamos a juventude tentando corresponder.
Passamos boa parte da vida procurando aprovação.
Até que chega um momento em que a maturidade nos
coloca diante de uma pergunta simples:
De quem é a vida que estou vivendo?
Essa pergunta costuma fazer silêncio.
Porque ela não aceita respostas rápidas.
Ela exige honestidade.
E honestidade, às vezes, dói.
O leão não nasce quando descobrimos quem somos.
O leão nasce quando paramos de viver apenas para
atender às expectativas dos outros.
Ele aprende a dizer "não".
Não ao medo.
Não à culpa.
Não à necessidade permanente de agradar.
Mas existe uma coisa curiosa.
Mesmo o leão ainda vive lutando.
E ninguém consegue viver em guerra para sempre.
Foi então que me dei conta de uma coisa que talvez
explique por que aquela metáfora ficou andando comigo o dia inteiro.
O destino da história não é o leão.
É a criança.
Confesso que essa parte sempre me emocionou.
Porque, quando pensamos em maturidade, imaginamos
alguém cada vez mais sério.
Cada vez mais rígido.
Cada vez mais cheio de certezas.
Nietzsche propõe exatamente o contrário.
Depois do peso do camelo...
Depois da coragem do leão...
Surge a criança.
Não a criança ingênua.
Mas a criança capaz de criar.
Capaz de brincar.
Capaz de começar de novo.
Capaz de olhar para a vida sem precisar carregar o
passado o tempo inteiro.
Talvez seja isso que mais me encanta nessa imagem.
Ela nos lembra que amadurecer não significa
endurecer.
Significa recuperar a liberdade.
Enquanto escrevo estas linhas, percebo que talvez eu
tenha entendido melhor o Bilhete de hoje.
Decidir muda pouco.
Porque a decisão ainda pertence ao pensamento.
Começar...
Ah...
Começar pertence à criança.
É ela quem experimenta.
É ela quem cai.
É ela quem levanta.
É ela quem tenta outra vez sem transformar cada erro
em uma sentença definitiva.
Talvez por isso tantas pessoas permaneçam anos
tomando a mesma decisão.
Elas esperam sentir segurança suficiente.
Esperam ter todas as respostas.
Esperam que o medo desapareça.
Mas a vida raramente funciona assim.
O primeiro passo quase nunca nasce da certeza.
Ele nasce de uma coragem muito mais discreta.
A coragem de aceitar que não controlamos tudo.
Olho para minha própria vida e percebo quantas vezes
esperei pelo momento perfeito.
Ele nunca chegou.
Os momentos que realmente mudaram minha história
foram, quase sempre, imperfeitos.
Vieram acompanhados de dúvidas.
De receios.
De noites mal dormidas.
E, ainda assim, foram eles que abriram caminhos que
eu jamais teria encontrado permanecendo parado.
Talvez você esteja vivendo algo parecido.
Talvez exista uma conversa que precisa acontecer.
Uma decisão que amadureceu há muito tempo.
Um projeto que continua apenas no papel.
Um pedido de perdão.
Um recomeço.
Não sei.
Cada um conhece o deserto que atravessa.
Mas, se Nietzsche passou o dia inteiro caminhando
comigo, acho que ele me deixou uma boa companhia para dividir com você.
Quem sabe a vida não seja uma longa sucessão dessas
três figuras.
Há dias em que somos camelos.
Há dias em que precisamos ser leões.
Mas a beleza da caminhada talvez esteja nos dias em
que conseguimos voltar a ser crianças.
Porque é somente a criança que começa sem exigir da
vida a promessa de que tudo dará certo.
Ela simplesmente começa.
E, pensando bem...
Talvez seja exatamente isso que o Bilhete de hoje
estivesse tentando dizer desde o início.
Decidir muda pouco.
Começar muda tudo.
Ronaldo
Arouca
Mente Madura
Linhares ES 21 de Julho de 2026.
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Começar muda tudo . É isso precisamos ter coragem pra iniciar uma mudança hoje.
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