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Crônicas do Mente Madura - O dia em que Helena decidiu que o marido deveria ir embora.

  Helena não acordou naquela manhã pensando em se separar. Essa é a parte que quase ninguém entenderia depois. Quando contou às amigas o que havia acontecido, todas perguntaram: — Mas você já não estava pensando nisso há algum tempo? Não. Pelo menos não daquela maneira. Helena estava cansada. Isso, sim. Cansada de fazer contas. Cansada de abrir o aplicativo do banco antes de abrir as mensagens. Cansada de olhar para as despesas e perceber que o mês ainda estava longe de terminar. Cansada de trabalhar mais e continuar sentindo que o dinheiro nunca chegava. Cansada das parcelas. Dos compromissos. Das cobranças. Da sensação de que qualquer imprevisto poderia desmontar tudo. E havia outra coisa que ninguém via. Quando a pressão aumentava, o corpo de Helena mudava. O peito apertava. O estômago embrulhava. Os músculos ficavam rígidos. Ela perdia o sono. Às vezes, acordava no meio da madrugada com a sensação de que alguma coisa terrível estava...

As bênçãos que passam em silêncio.

 



Há uma estranha habilidade da mente humana.

Ela registra com facilidade aquilo que ameaça a vida.

Mas quase nunca percebe aquilo que a sustenta.

Talvez por isso um único problema consiga ocupar completamente os nossos pensamentos, enquanto centenas de pequenos presentes atravessam o mesmo dia sem serem notados.

O ar entra e sai dos pulmões.

O coração continua trabalhando sem pedir licença.

Os olhos reconhecem o rosto de quem amamos.

A água mata a sede.

O corpo encontra forças para mais um passo.

Tudo isso acontece em absoluto silêncio.

E justamente por acontecer todos os dias, deixamos de chamá-los de milagres.

Passamos a chamá-los de rotina.

Mas existe uma pergunta que muda completamente a maneira de olhar para a vida.

Se tudo aquilo que hoje você considera comum desaparecesse por apenas um dia... quanto valeria para recuperá-lo amanhã?

Talvez descubramos, finalmente, que nunca foram coisas comuns.

Foram bênçãos tão constantes que nossa consciência se acostumou com elas.

Existe uma ilusão silenciosa que acompanha quase todos nós.

Acreditamos que a felicidade chegará quando a vida nos entregar algo novo.

Entretanto, talvez a maior parte da felicidade já esteja presente, esperando apenas ser percebida.

O sofrimento costuma anunciar a perda.

As bênçãos quase nunca anunciam a própria presença.

Elas simplesmente permanecem ali.

Pacientes.

Discretas.

Esperando que alguém desperte.

E talvez maturidade seja exatamente isso.

Descobrir que a vida sempre foi extraordinária.

Nós é que, muitas vezes, estávamos distraídos demais para percebê-la.


Ronaldo Arouca

Reflexões sob o sol de Linhares ES
12 de Julho de 2026


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