Pular para o conteúdo principal

Destaques

Crônicas do Mente Madura - O dia em que Helena decidiu que o marido deveria ir embora.

  Helena não acordou naquela manhã pensando em se separar. Essa é a parte que quase ninguém entenderia depois. Quando contou às amigas o que havia acontecido, todas perguntaram: — Mas você já não estava pensando nisso há algum tempo? Não. Pelo menos não daquela maneira. Helena estava cansada. Isso, sim. Cansada de fazer contas. Cansada de abrir o aplicativo do banco antes de abrir as mensagens. Cansada de olhar para as despesas e perceber que o mês ainda estava longe de terminar. Cansada de trabalhar mais e continuar sentindo que o dinheiro nunca chegava. Cansada das parcelas. Dos compromissos. Das cobranças. Da sensação de que qualquer imprevisto poderia desmontar tudo. E havia outra coisa que ninguém via. Quando a pressão aumentava, o corpo de Helena mudava. O peito apertava. O estômago embrulhava. Os músculos ficavam rígidos. Ela perdia o sono. Às vezes, acordava no meio da madrugada com a sensação de que alguma coisa terrível estava...

A Beleza não Desapareceu


 

Há pessoas que passam a vida esperando o momento em que tudo finalmente ficará bem.

Quando a doença passar.

Quando o casamento melhorar.

Quando os filhos crescerem.

Quando as contas estiverem pagas.

Quando a ansiedade diminuir.

Quando o luto terminar.

Quando...

É curioso.

Vivemos como se a felicidade estivesse sempre escondida depois da próxima curva.

Talvez por isso tantas pessoas sintam que a vida lhes deve alguma coisa.

Porque esperaram o tempo todo pelo capítulo em que finalmente deixariam de sofrer.

Mas esse capítulo nunca chega.

Não porque a vida seja cruel.

Mas porque ela nunca prometeu isso.

A vida contém perdas.

Contém despedidas.

Contém doenças.

Contém traições.

Contém medos.

Contém acidentes.

Contém lágrimas.

Contém silêncios que parecem não terminar.

Negar isso não nos torna mais felizes.

Apenas nos torna mais despreparados.

Existe, porém, uma descoberta que costuma acontecer apenas com quem amadurece.

A tragédia nunca conseguiu expulsar completamente a beleza.

Ela apenas mudou o lugar onde procuramos por ela.

Quando somos jovens, imaginamos que a beleza mora nas grandes conquistas.

Depois descobrimos que ela também mora em um café compartilhado.

Em um abraço demorado.

Na risada de um filho.

Na sombra de uma árvore.

Na mão de alguém que continua ao nosso lado.

No cheiro da terra depois da chuva.

No silêncio que finalmente deixa de assustar.

Há uma estranha tendência humana de acreditar que a dor invalida tudo o que é belo.

Como se uma perda apagasse todos os amores.

Como se uma traição destruísse toda a capacidade de confiar.

Como se uma doença impedisse qualquer possibilidade de alegria.

Mas a vida parece insistir em nos ensinar outra coisa.

Ela não elimina a tragédia.

Também não elimina a beleza.

As duas passam a caminhar juntas.

Talvez seja isso que chamamos de maturidade.

Não é deixar de sofrer.

É deixar de acreditar que o sofrimento possui a última palavra.

As árvores sabem disso.

Elas enfrentam verões intensos.

Invernos rigorosos.

Tempestades.

Secas.

Perdem folhas.

Quebram galhos.

Carregam marcas.

E, ainda assim, quando chega a estação certa, florescem novamente.

Não porque esqueceram o inverno.

Mas porque aprenderam que ele nunca foi toda a história.

Talvez nós também precisemos aprender isso.

Não existe vida sem cicatrizes.

Mas também não existe cicatriz que seja capaz de apagar completamente a beleza de uma existência.

Ela continua ali.

Mais discreta.

Mais silenciosa.

Talvez menos exuberante.

Mas, curiosamente, muito mais verdadeira.

Hoje penso que amadurecer é aprender a olhar para a mesma paisagem e enxergar duas realidades ao mesmo tempo.

Reconhecer a dor sem permitir que ela ocupe todo o horizonte.

Acolher a tragédia sem deixar de perceber a delicadeza que continua acontecendo todos os dias.

Porque talvez a esperança não seja acreditar que a vida deixará de doer.

Talvez esperança seja descobrir que, mesmo quando dói, ela continua sendo extraordinariamente bonita.

Jordan Peterson escreveu certa vez:

"A vida contém tragédias, mas a beleza ainda está lá."

Talvez seja justamente isso.

A beleza nunca foi embora.

Talvez nós apenas tenhamos parado de procurá-la.


Por Ronaldo Arouca

Reflexões sob o sol de Linhares – ES

6 de julho de 2026.

 

Comentários

  1. É uma reflexão profunda e, honestamente, muito real. Existe uma beleza dolorosa nisso, mas a verdade é que o conforto e a proximidade constante nos mantêm em uma zona de segurança onde não precisamos nos esticar.
    ​A distância cria o espaço necessário para a autossuficiência. É quando nos afastamos das nossas referências seguras (sejam pessoas, lugares ou hábitos) que somos obrigados a descobrir quem somos por conta própria, sem o reflexo do outro para nos definir.
    ​E a dor... bem, ela funciona como uma espécie de cinzel. Ninguém muda quando tudo está perfeito. É o desconforto que nos força a recalibrar a rota, a abandonar velhas cascas e a desenvolver uma musculatura emocional que a facilidade jamais conseguiria criar. A maturidade muitas vezes não chega com o tempo, mas sim com os invernos que a gente consegue atravessar.
    ​É um processo solitário, mas que devolve a gente para nós mesmos muito mais fortes.

    ResponderExcluir
  2. Outro gol de placa. Cada texto um aprendizado que amaina a alma

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas