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Destaques

Quando deixamos de negociar com a realidade.

  Existe um momento curioso na vida em que percebemos que passamos anos tentando convencer a realidade de que ela deveria ter sido diferente. Nem sempre fazemos isso de forma consciente. Às vezes, essa negociação acontece em silêncio, dentro de nós. Ela aparece quando insistimos em perguntar por que determinada perda aconteceu, por que uma relação terminou ou por que certos sonhos nunca se realizaram. Como se, ao encontrarmos uma resposta suficientemente convincente, a vida decidisse nos devolver aquilo que levou. Mas a realidade não negocia. Ela apenas continua. Talvez essa seja uma das verdades mais difíceis de aceitar. Não porque seja cruel, mas porque desmonta uma esperança silenciosa que alimentamos durante muito tempo: a de que, se insistirmos o bastante, a vida acabará cedendo às nossas expectativas. Entretanto, a maturidade não nasce quando conseguimos controlar o que acontece. Ela começa quando compreendemos que viver nunca significou estar protegido da dor. ...

A Beleza não Desapareceu


 

Há pessoas que passam a vida esperando o momento em que tudo finalmente ficará bem.

Quando a doença passar.

Quando o casamento melhorar.

Quando os filhos crescerem.

Quando as contas estiverem pagas.

Quando a ansiedade diminuir.

Quando o luto terminar.

Quando...

É curioso.

Vivemos como se a felicidade estivesse sempre escondida depois da próxima curva.

Talvez por isso tantas pessoas sintam que a vida lhes deve alguma coisa.

Porque esperaram o tempo todo pelo capítulo em que finalmente deixariam de sofrer.

Mas esse capítulo nunca chega.

Não porque a vida seja cruel.

Mas porque ela nunca prometeu isso.

A vida contém perdas.

Contém despedidas.

Contém doenças.

Contém traições.

Contém medos.

Contém acidentes.

Contém lágrimas.

Contém silêncios que parecem não terminar.

Negar isso não nos torna mais felizes.

Apenas nos torna mais despreparados.

Existe, porém, uma descoberta que costuma acontecer apenas com quem amadurece.

A tragédia nunca conseguiu expulsar completamente a beleza.

Ela apenas mudou o lugar onde procuramos por ela.

Quando somos jovens, imaginamos que a beleza mora nas grandes conquistas.

Depois descobrimos que ela também mora em um café compartilhado.

Em um abraço demorado.

Na risada de um filho.

Na sombra de uma árvore.

Na mão de alguém que continua ao nosso lado.

No cheiro da terra depois da chuva.

No silêncio que finalmente deixa de assustar.

Há uma estranha tendência humana de acreditar que a dor invalida tudo o que é belo.

Como se uma perda apagasse todos os amores.

Como se uma traição destruísse toda a capacidade de confiar.

Como se uma doença impedisse qualquer possibilidade de alegria.

Mas a vida parece insistir em nos ensinar outra coisa.

Ela não elimina a tragédia.

Também não elimina a beleza.

As duas passam a caminhar juntas.

Talvez seja isso que chamamos de maturidade.

Não é deixar de sofrer.

É deixar de acreditar que o sofrimento possui a última palavra.

As árvores sabem disso.

Elas enfrentam verões intensos.

Invernos rigorosos.

Tempestades.

Secas.

Perdem folhas.

Quebram galhos.

Carregam marcas.

E, ainda assim, quando chega a estação certa, florescem novamente.

Não porque esqueceram o inverno.

Mas porque aprenderam que ele nunca foi toda a história.

Talvez nós também precisemos aprender isso.

Não existe vida sem cicatrizes.

Mas também não existe cicatriz que seja capaz de apagar completamente a beleza de uma existência.

Ela continua ali.

Mais discreta.

Mais silenciosa.

Talvez menos exuberante.

Mas, curiosamente, muito mais verdadeira.

Hoje penso que amadurecer é aprender a olhar para a mesma paisagem e enxergar duas realidades ao mesmo tempo.

Reconhecer a dor sem permitir que ela ocupe todo o horizonte.

Acolher a tragédia sem deixar de perceber a delicadeza que continua acontecendo todos os dias.

Porque talvez a esperança não seja acreditar que a vida deixará de doer.

Talvez esperança seja descobrir que, mesmo quando dói, ela continua sendo extraordinariamente bonita.

Jordan Peterson escreveu certa vez:

"A vida contém tragédias, mas a beleza ainda está lá."

Talvez seja justamente isso.

A beleza nunca foi embora.

Talvez nós apenas tenhamos parado de procurá-la.


Por Ronaldo Arouca

Reflexões sob o sol de Linhares – ES

6 de julho de 2026.

 

Comentários

  1. É uma reflexão profunda e, honestamente, muito real. Existe uma beleza dolorosa nisso, mas a verdade é que o conforto e a proximidade constante nos mantêm em uma zona de segurança onde não precisamos nos esticar.
    ​A distância cria o espaço necessário para a autossuficiência. É quando nos afastamos das nossas referências seguras (sejam pessoas, lugares ou hábitos) que somos obrigados a descobrir quem somos por conta própria, sem o reflexo do outro para nos definir.
    ​E a dor... bem, ela funciona como uma espécie de cinzel. Ninguém muda quando tudo está perfeito. É o desconforto que nos força a recalibrar a rota, a abandonar velhas cascas e a desenvolver uma musculatura emocional que a facilidade jamais conseguiria criar. A maturidade muitas vezes não chega com o tempo, mas sim com os invernos que a gente consegue atravessar.
    ​É um processo solitário, mas que devolve a gente para nós mesmos muito mais fortes.

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  2. Outro gol de placa. Cada texto um aprendizado que amaina a alma

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