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Crônicas do Mente Madura - O dia em que Helena decidiu que o marido deveria ir embora.

  Helena não acordou naquela manhã pensando em se separar. Essa é a parte que quase ninguém entenderia depois. Quando contou às amigas o que havia acontecido, todas perguntaram: — Mas você já não estava pensando nisso há algum tempo? Não. Pelo menos não daquela maneira. Helena estava cansada. Isso, sim. Cansada de fazer contas. Cansada de abrir o aplicativo do banco antes de abrir as mensagens. Cansada de olhar para as despesas e perceber que o mês ainda estava longe de terminar. Cansada de trabalhar mais e continuar sentindo que o dinheiro nunca chegava. Cansada das parcelas. Dos compromissos. Das cobranças. Da sensação de que qualquer imprevisto poderia desmontar tudo. E havia outra coisa que ninguém via. Quando a pressão aumentava, o corpo de Helena mudava. O peito apertava. O estômago embrulhava. Os músculos ficavam rígidos. Ela perdia o sono. Às vezes, acordava no meio da madrugada com a sensação de que alguma coisa terrível estava...

A árvore que nunca teve pressa

 


Vivemos numa época curiosa.

Todos querem crescer.

Mas quase ninguém quer criar raízes.

Queremos resultados rápidos, mudanças imediatas, respostas prontas, felicidade constante e uma versão melhor de nós mesmos para ontem.

Corremos tanto que começamos a acreditar que maturidade é velocidade.

Mas não é.

Existe uma árvore descrita em um antigo poema que me fascina há muitos anos.

Ela não é admirada por ser a mais alta da floresta.

Nem por produzir os frutos mais bonitos.

Muito menos porque nunca enfrentou tempestades.

Ela chama a atenção por uma única razão:

Está plantada no lugar certo.

E talvez essa seja uma das maiores lições que a vida tenta nos ensinar.

As árvores não crescem olhando para o céu.

Elas crescem olhando para baixo.

Enquanto nós admiramos a copa, a natureza trabalha nas raízes.

E ninguém fotografa raízes.

Ninguém elogia raízes.

Ninguém publica raízes nas redes sociais.

Mas é exatamente nelas que a vida acontece.

Talvez seja por isso que tanta gente esteja cansada.

Passamos anos tentando fortalecer a copa.

Melhoramos a aparência.

Aprendemos novas técnicas.

Compramos livros.

Fazemos cursos.

Mudamos de emprego.

Mudamos de cidade.

Mudamos de relacionamento.

Mudamos de roupa.

Mudamos quase tudo.

Menos aquilo que sustenta tudo.

As raízes.

Há pessoas que acreditam que amadurecer é endurecer.

Discordo.

Uma árvore madura não endurece.

Ela se torna flexível.

Aprende a balançar sem quebrar.

Descobre que resistir nem sempre significa permanecer imóvel.

Às vezes resistir é simplesmente continuar vivo depois da tempestade.

Também aprendi outra coisa observando as árvores.

Elas nunca disputam altura umas com as outras.

Cada uma cresce no ritmo que suas raízes conseguem sustentar.

Enquanto nós vivemos comparando capítulos, a natureza respeita processos.

Talvez a ansiedade seja exatamente isso:

A tentativa de colher frutos em uma árvore que ainda precisa de mais raízes.

Vivemos preocupados com os frutos.

A vida parece preocupada com a seiva.

Queremos controlar o clima.

Mas esquecemos de cuidar da terra.

Queremos eliminar todas as tempestades.

Mas são justamente elas que obrigam as raízes a mergulhar mais fundo.

Existe uma frase muito conhecida que diz que uma árvore é reconhecida pelos seus frutos.

Concordo.

Mas talvez exista uma verdade anterior.

Toda árvore é construída pelas suas raízes.

E raízes não aparecem.

São silenciosas.

Trabalham escondidas.

Não competem.

Não impressionam.

Apenas sustentam.

Talvez seja assim também conosco.

A vida que vale a pena ser vivida não nasce quando tudo finalmente dá certo.

Ela começa quando deixamos de viver apenas para parecer fortes e passamos a cultivar aquilo que realmente nos sustenta.

Talvez maturidade não seja tornar-se uma árvore maior.

Talvez seja tornar-se uma árvore mais profundamente enraizada.

Porque quem aprende a cuidar das raízes deixa de ter medo das estações.

E, cedo ou tarde, oferece exatamente aquilo que toda árvore saudável oferece ao mundo:

Sombra.

Frutos.

E sementes.

Talvez seja por isso que eu continue acreditando que a verdadeira transformação humana não acontece na copa.

Ela sempre começa em silêncio.

Debaixo da terra.

Onde quase ninguém olha.

Mas de onde toda a vida nasce.

 

Por: Ronaldo Arouca
Reflexões sob o sol de Linhares - ES  
07de julho de 2026

Comentários

  1. Ótima reflexão! Uma analogia maravilhosa com nossas vidas.

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  2. Tô subindo aqui no terraço do prédio para aplaudir do lugar mais alto. Show

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