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Destaques

Quando deixamos de negociar com a realidade.

  Existe um momento curioso na vida em que percebemos que passamos anos tentando convencer a realidade de que ela deveria ter sido diferente. Nem sempre fazemos isso de forma consciente. Às vezes, essa negociação acontece em silêncio, dentro de nós. Ela aparece quando insistimos em perguntar por que determinada perda aconteceu, por que uma relação terminou ou por que certos sonhos nunca se realizaram. Como se, ao encontrarmos uma resposta suficientemente convincente, a vida decidisse nos devolver aquilo que levou. Mas a realidade não negocia. Ela apenas continua. Talvez essa seja uma das verdades mais difíceis de aceitar. Não porque seja cruel, mas porque desmonta uma esperança silenciosa que alimentamos durante muito tempo: a de que, se insistirmos o bastante, a vida acabará cedendo às nossas expectativas. Entretanto, a maturidade não nasce quando conseguimos controlar o que acontece. Ela começa quando compreendemos que viver nunca significou estar protegido da dor. ...

Para o "Amor da sua vida"!


 

O Espelho e o Relógio: A Clareza Inadiável da Morte.

Imagine que o universo, em sua fria e implacável matemática, lhe entrega um envelope. Dentro, um diagnóstico: a pessoa que você mais ama tem doze meses. Apenas doze ciclos lunares para absorver a vida, para se despedir, para existir. O chão some, o ar falta. O tempo, antes uma névoa infinita, condensa-se em uma ampulheta cruelmente visível. Essa é a metáfora mais brutal da finitude, a que nos atinge no ponto mais sensível da nossa arquitetura emocional.

A dor é um portal. Ela nos força a confrontar a clareza inadiável da morte, transformando o abstrato em uma contagem regressiva palpável. O luto antecipado nos obriga a reordenar prioridades, a falar o que não foi dito, a viver o que foi adiado. É um curso intensivo de valorização da vida, ministrado pela sombra da perda.

Mas, pare. Respire fundo na vertigem desse abismo. Quem é essa pessoa? Quem é o epicentro desse seu universo afetivo que, ao ser ameaçado, desmorona a sua própria estrutura? É o cônjuge, o filho, o amigo de uma vida? O convite aqui é para uma introspecção desconfortável, um mergulho sem colete salva-vidas na sua própria verdade. Você consegue nomear, sem hesitar, a figura que detém o título de "pessoa que mais amo" na sua vida?

E se a resposta, a única resposta lúcida e inegociável, fosse você?

A pessoa que mais deveria ser amada, cuidada e priorizada, o único ser com quem você tem um contrato de permanência vitalício, é você mesmo. O amor-próprio não é egoísmo; é a fundação a partir da qual todo o resto se sustenta. É o oxigênio que você deve colocar em si antes de tentar salvar os outros.

Agora, volte ao envelope. O diagnóstico é seu. Doze meses. As atitudes e reações seriam as mesmas? A dor seria diferente? A urgência de viver seria maior ou menor? A verdade é que a maioria de nós vive a vida como se fosse um rascunho, esperando o momento certo para amar a si mesmo com a intensidade que dedicamos aos outros. A clareza da morte de um ente querido é um soco no estômago; a clareza da sua morte é o espelho quebrado que revela a negligência com o seu próprio templo.

A morte, quando encarada de frente, não é um ponto final, mas um marcador de responsabilidade. Ela é o lembrete final de que a vida é um fluxo contínuo de fases, e a assimilação das bênçãos de cada momento é uma tarefa intransferível. Não se trata de resignação, mas de uma aceitação ativa: a de que cada fase — a da plenitude, a da escassez, a da saúde, a da doença — carrega consigo uma lição, um presente embrulhado em circunstâncias nem sempre agradáveis.

A responsabilidade de entender a morte é, paradoxalmente, a responsabilidade de entender a vida. É a bússola que nos aponta para o agora, para a gratidão pelo que é e não pelo que deveria ser. É a única forma de garantir que, ao final da contagem, você não lamente ter amado o mundo inteiro, exceto a pessoa que o habitava.

Então, quem é a pessoa que você mais ama? E o que você fará com os próximos doze meses dela? O relógio está correndo. O espelho está esperando.

 

Por: Ronaldo Arouca

Reflexões ao nascer do sol em Balneário Piçarras S.C.

27/01/2026

 


Comentários

  1. Inspirador, coerente e envolvente. Parabéns Ronaldo.

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  2. Amar a si próprio é a premissa do amai uns aos outros, ou simplificando ame o próximo como a ti mesmo.
    Essa analogia entre o amor e a morte vem carregada de uma verdade assustadora - a quem estou amando realmente?
    Mais um show, Mestre.

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