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Destaques

Crônicas do Mente Madura - O dia em que Helena decidiu que o marido deveria ir embora.

  Helena não acordou naquela manhã pensando em se separar. Essa é a parte que quase ninguém entenderia depois. Quando contou às amigas o que havia acontecido, todas perguntaram: — Mas você já não estava pensando nisso há algum tempo? Não. Pelo menos não daquela maneira. Helena estava cansada. Isso, sim. Cansada de fazer contas. Cansada de abrir o aplicativo do banco antes de abrir as mensagens. Cansada de olhar para as despesas e perceber que o mês ainda estava longe de terminar. Cansada de trabalhar mais e continuar sentindo que o dinheiro nunca chegava. Cansada das parcelas. Dos compromissos. Das cobranças. Da sensação de que qualquer imprevisto poderia desmontar tudo. E havia outra coisa que ninguém via. Quando a pressão aumentava, o corpo de Helena mudava. O peito apertava. O estômago embrulhava. Os músculos ficavam rígidos. Ela perdia o sono. Às vezes, acordava no meio da madrugada com a sensação de que alguma coisa terrível estava...

Para o "Amor da sua vida"!


 

O Espelho e o Relógio: A Clareza Inadiável da Morte.

Imagine que o universo, em sua fria e implacável matemática, lhe entrega um envelope. Dentro, um diagnóstico: a pessoa que você mais ama tem doze meses. Apenas doze ciclos lunares para absorver a vida, para se despedir, para existir. O chão some, o ar falta. O tempo, antes uma névoa infinita, condensa-se em uma ampulheta cruelmente visível. Essa é a metáfora mais brutal da finitude, a que nos atinge no ponto mais sensível da nossa arquitetura emocional.

A dor é um portal. Ela nos força a confrontar a clareza inadiável da morte, transformando o abstrato em uma contagem regressiva palpável. O luto antecipado nos obriga a reordenar prioridades, a falar o que não foi dito, a viver o que foi adiado. É um curso intensivo de valorização da vida, ministrado pela sombra da perda.

Mas, pare. Respire fundo na vertigem desse abismo. Quem é essa pessoa? Quem é o epicentro desse seu universo afetivo que, ao ser ameaçado, desmorona a sua própria estrutura? É o cônjuge, o filho, o amigo de uma vida? O convite aqui é para uma introspecção desconfortável, um mergulho sem colete salva-vidas na sua própria verdade. Você consegue nomear, sem hesitar, a figura que detém o título de "pessoa que mais amo" na sua vida?

E se a resposta, a única resposta lúcida e inegociável, fosse você?

A pessoa que mais deveria ser amada, cuidada e priorizada, o único ser com quem você tem um contrato de permanência vitalício, é você mesmo. O amor-próprio não é egoísmo; é a fundação a partir da qual todo o resto se sustenta. É o oxigênio que você deve colocar em si antes de tentar salvar os outros.

Agora, volte ao envelope. O diagnóstico é seu. Doze meses. As atitudes e reações seriam as mesmas? A dor seria diferente? A urgência de viver seria maior ou menor? A verdade é que a maioria de nós vive a vida como se fosse um rascunho, esperando o momento certo para amar a si mesmo com a intensidade que dedicamos aos outros. A clareza da morte de um ente querido é um soco no estômago; a clareza da sua morte é o espelho quebrado que revela a negligência com o seu próprio templo.

A morte, quando encarada de frente, não é um ponto final, mas um marcador de responsabilidade. Ela é o lembrete final de que a vida é um fluxo contínuo de fases, e a assimilação das bênçãos de cada momento é uma tarefa intransferível. Não se trata de resignação, mas de uma aceitação ativa: a de que cada fase — a da plenitude, a da escassez, a da saúde, a da doença — carrega consigo uma lição, um presente embrulhado em circunstâncias nem sempre agradáveis.

A responsabilidade de entender a morte é, paradoxalmente, a responsabilidade de entender a vida. É a bússola que nos aponta para o agora, para a gratidão pelo que é e não pelo que deveria ser. É a única forma de garantir que, ao final da contagem, você não lamente ter amado o mundo inteiro, exceto a pessoa que o habitava.

Então, quem é a pessoa que você mais ama? E o que você fará com os próximos doze meses dela? O relógio está correndo. O espelho está esperando.

 

Por: Ronaldo Arouca

Reflexões ao nascer do sol em Balneário Piçarras S.C.

27/01/2026

 


Comentários

  1. Inspirador, coerente e envolvente. Parabéns Ronaldo.

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  2. Amar a si próprio é a premissa do amai uns aos outros, ou simplificando ame o próximo como a ti mesmo.
    Essa analogia entre o amor e a morte vem carregada de uma verdade assustadora - a quem estou amando realmente?
    Mais um show, Mestre.

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